O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição neurológica complexa que afeta o desenvolvimento de uma pessoa, influenciando a forma como ela interage, se comunica, aprende e se comporta. É chamado de espectro porque há uma ampla variação na forma como o TEA se manifesta em cada indivíduo. 

Alguns autistas podem ter habilidades excepcionais em áreas específicas, enquanto outros podem enfrentar desafios significativos em atividades mais simples, como sociabilidade, relacionamentos pessoais, etc. 

Isso acontece porque as características principais de uma pessoa com TEA incluem dificuldades na comunicação e interação, padrões de comportamento repetitivos ou restritos e interesses específicos. O diagnóstico, feito por especialistas, é baseado na observação do comportamento e desenvolvimento individual.

O número de diagnósticos do espectro aumentou nos últimos anos, acompanhando mudanças nos critérios clínicos e a maior conscientização da sociedade. Dados do Censo Demográfico 2022, realizado pelo IBGE, apontaram que 2,4 milhões de brasileiros receberam diagnóstico de TEA, o equivalente a 1,2% da população. Entre as crianças de 5 a 9 anos, a prevalência chegou a 2,6%, aproximadamente uma em cada 36 crianças.Para especialistas, o aumento nos diagnósticos não deve ser confundido com crescimento real de casos. Anderson Garcez Faccio, diretor clínico da ABA Neuro e especialista em neurociência do desenvolvimento, explica que existem vários fatores que explicam o cenário atual. “Anteriormente, casos mais leves ou atípicos poderiam não ser identificados, o que não ocorre com a aplicação dos critérios atuais”.

“Estamos apenas enxergando melhor algo que sempre existiu”, afirma o psicólogo. (Fonte: arquivo pessoal)

Outro ponto relevante para o aumento nos dados do Censo, está na maior conscientização sobre o TEA, tanto entre profissionais de saúde quanto no público em geral.  

“É importante notar que o aumento nos diagnósticos não necessariamente indica um aumento real na prevalência do TEA, mas sim uma melhor identificação dos casos existentes”, completa o psicólogo.

O olhar clínico para pessoas autistas

O diagnóstico de TEA é um processo complexo que envolve a avaliação com uma equipe ampla e multiprofissional. No caso de crianças, geralmente há uma união de neuropediatras, psiquiatras infantis, psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. 

O processo diagnóstico geralmente envolve diversas  etapas, que incluem entrevistas, aplicação de questionários, avaliação de comportamento social, habilidade de comunicação, avaliação de habilidades cognitivas e exclusão de condições médicas ou genéticas que causam o sintoma. 

Como explica o psicólogo os sinais mais comuns para diagnosticar pessoas com TEA variam na apresentação e intensidade, mas geralmente incluem:

  • dificuldades na interação social, como evitar contato visual, não responder ao nome ou ter dificuldade em entender as emoções dos outros; 
  • desafios na comunicação, como atraso no desenvolvimento da fala, em iniciar ou manter conversas ou uso repetitivo da linguagem; 
  • comportamentos repetitivos ou restritos, como balançar o corpo, alinhar objetos, seguir rotinas rígidas ou ter um apego incomum a determinados itens; 
  • interesses intensos e específicos, como obsessão por determinados temas ou objetos; 
  • sensibilidade sensorial, como reações extremas a sons, luzes, texturas ou cheiros.

“É importante notar que nem todas as crianças e adultos com TEA apresentarão todos esses sinais, e a presença de um ou mais deles não significa necessariamente que tenha TEA. A avaliação de um profissional especializado é fundamental para um diagnóstico preciso”, confirma o especialista.

O diagnóstico de autismo só é efetivado após todos os  dados serem coletados e o resultado atender aos critérios de diagnósticos estabelecidos pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). “É importante ressaltar que o diagnóstico de TEA deve ser feito por um profissional qualificado, e não apenas com base em informações encontradas na internet ou em relatos de outras pessoas”, reforça Anderson.

Ele destaca também que não há comprovações científicas sobre o que desenvolve o Espectro Autista, mas que pesquisas seguem em andamento: “O que temos certeza é que o diagnóstico precoce faz diferença na vida da criança e da família”.

A Carteira do Autista garante prioridade no atendimento e acesso a serviços. (Fonte: Ana Paula Campos)

O diagnóstico muda rotinas dentro e fora de casa de uma pessoa com autismo. Valdir José, pai do Otávio, de 11 anos, explica que recebeu o diagnóstico do filho a partir da escola. “A equipe pedagógica demonstrou preocupações em relação ao desenvolvimento dele. Um tempo depois procuramos um neuro e começamos o tratamento correto pra ele, com terapias e medicações. Na escola, apresentamos o laudo, e foi isso que garantiu uma professora de apoio e aulas de reforço para ele conseguir se desenvolver e melhorar o desenvolvimento em sala”. 

Hoje, Otávio consegue se comunicar e ter um rendimento escolar melhor do que antes do diagnóstico. “Eu demorei mais pra aprender a ler e escrever, o barulho em sala sempre me atrapalhou e me tirou a atenção. Nas aulas de reforço, recebo as atividades em etapas: primeiro as figuras, depois o texto numa sala com menos gente”. 

A escola, assim como no caso de Otávio, exerce um papel fundamental no processo de observação e encaminhamento de alunos com suspeita de TEA. Os professores e a equipe pedagógica, devido ao contato diário com os alunos, têm a oportunidade de observar de perto o comportamento, as interações sociais, a comunicação e o desenvolvimento acadêmico de cada criança. A parceria entre a escola e a família é essencial para garantir que a criança receba o apoio adequado o mais cedo possível.

Sinais como dificuldades de interação com os colegas, comportamentos repetitivos, dificuldades de comunicação, interesses restritos e reações incomuns a estímulos sensoriais podem ser identificados no ambiente escolar. “Quando a equipe escolar identifica sinais que levantam suspeitas de TEA, é crucial que a escola inicie um diálogo com os pais ou responsáveis, compartilhando as observações e preocupações de forma sensível e construtiva”, orienta o psicólogo. 

Autodiagnóstico é risco para Sistema de Saúde

O diagnóstico precoce é considerado essencial para ampliar a eficácia das intervenções terapêuticas, que incluem terapia comportamental, fonoaudiologia e terapia ocupacional. 

“A sociedade está mais informada. Pais, professores e profissionais de saúde sabem reconhecer sinais e buscam ajuda. Esse movimento amplia os números, mas não significa que o autismo esteja ‘se espalhando’. Estamos apenas enxergando melhor algo que sempre existiu”, diz Anderson. 

Contudo, apesar dos avanços, o fenômeno do autodiagnóstico (quando indivíduos se identificam com características do TEA sem avaliação clínica)  representa um desafio para o tratamento correto do autismo.  

A desinformação pode afetar o acesso de quem realmente precisa das políticas de inclusão e das terapias intensivas, sobrecarregando serviços especializados e dificultando o acesso de quem tem ou precisa de um diagnóstico formal.

“O autodiagnóstico é um fenômeno crescente. Muitas pessoas se identificam com características do TEA pela internet e acabam acreditando que têm o transtorno. Isso pode gerar confusão, sobrecarregar serviços e tirar vagas de quem realmente precisa de acompanhamento”, finaliza o psicólogo.

One response to “Mais casos ou diagnósticos mais precisos?”

  1. […] Kowalski (14) foi diagnosticado com autismo aos dez anos, e desde então seus pais se associaram ao AGMA para poder obter suporte gratuito de […]

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