Por Helena de Julio e Mariana Huller

A primeira vez que Teresa Mariano Brand recebeu a notícia de que trabalharia com saúde mental, ela chorou. Não foi um choro de emoção, mas de pânico. Durante quinze dias consecutivos, a agente comunitária de saúde voltava para casa aos prantos, dominada por um medo antigo, enraizado no imaginário brasileiro: o medo do “louco”.

Para mim, saúde mental era passar longe. Eu achava que ia apanhar, que eles iam me bater“, confessa Teresa, hoje com 68 anos.
O medo dela não era individual, era coletivo.

Teresa cresceu em um Brasil que, por décadas, ensinou que o sofrimento psíquico deveria ser isolado, trancado e silenciado. Hospitais psiquiátricos, grades e internações longas eram apresentados como sinônimo de tratamento. Foi a chamada “era dos manicômios”, em que a regra vigente se baseava no “trancar para não ter que lidar”. Só que, diferente do que imaginava, a agente comunitária de saúde não encontrou grades quando chegou ao seu novo posto.

A mesma Teresa atravessa o portão do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) II, em Guarapuava. Não há cadeados, nem grades. O cheiro é de café fresco. Antes que possa chegar à sua mesa, ela é parada. Não por agressões, como antes imaginara, mas por abraços.

“Hoje, quando chego aqui, fico quase 10 minutos abraçando e beijando os pacientes que estavam à minha espera”, conta com um sorriso que contradiz suas lágrimas de 12 anos atrás. “Saúde mental não é só profissão, você tem que ter doação. Você tem que ouvir, tem que acolher”.

Teresa, Agente Comunitária de Saúde, recém-aposentada do Caps II, durante discurso na confraternização de encerramento de 2025. Após 12 anos na saúde mental, ela se tornou uma das referências afetivas e profissionais do serviço. Foto: Helena de Julio.

A transformação de Teresa, do medo ao afeto, é a personificação da própria Reforma Psiquiátrica Brasileira. Em Guarapuava, essa mudança não aconteceu apenas nos prédios ou na legislação, mas no olhar. Se antes a sociedade atravessava a rua para evitar o “doente”, hoje, no Caps, a porta está aberta. E quem entra, não quer mais sair. O que eu ouvi, o que eu vi, o que eu vivi e o que eu aprendi mudou tudo na minha vida. Me mudou, sabe?”, finaliza Teresa.


O que está em jogo: por que falar de reforma psiquiátrica?

Para entender as lágrimas de Teresa, é preciso recuar no tempo e compreender que a mudança em Guarapuava não foi apenas uma troca de endereço ou uma nova placa na porta. O que caiu ali não foram paredes, mas uma lógica inteira de funcionamento da saúde mental. Durante décadas, o Brasil operou sob o modelo hospitalocêntrico, em que o sofrimento psíquico era tratado como algo a ser isolado, afastado da cidade e da convivência social.

Em Guarapuava, essa realidade tinha endereço certo: o Hospital Santa Tereza, que chegava a abrigar 70 pacientes divididos em alas (masculina e feminina), recebendo pessoas de 22 municípios da região. Eram internamentos que duravam cerca de 45 dias, focados na contenção da crise, e que muitas vezes resultavam em constantes reinternações, devido à falta de acompanhamento contínuo dos lados de fora do hospital. Sem acompanhamento contínuo, muitos pacientes retornavam ao mesmo ciclo de internação, alta e reinternação.

Antigamente, saúde mental era considerado coisa de ‘louco’. Pacientes com transtorno mental e usuários de substâncias psicoativas, tudo junto e misturado. Se o paciente entortava a boca ou tinha um problema neurológico, era caracterizado como louco e mandado para o isolamento”, relembra Wilson Miguel Anciuti, auxiliar de enfermagem. 

Hospital Santa Tereza, em Guarapuava, em 1965. A instituição mantinha ala psiquiátrica que atendia, no mesmo espaço, pacientes com quadros diversos, refletindo o modelo hospitalocêntrico que antecedeu a reforma psiquiátrica. Foto: Arquivo pessoal Hospital Santa Tereza.

A fala de Wilson não descreve apenas um modelo de atendimento, ela revela um tempo em que a própria ideia de cuidado era atravessada pelo improviso, pela falta de critérios clínicos e pela sobrecarga das equipes. Profissionais precisavam lidar com realidades completamente distintas dentro do mesmo espaço, sem estrutura, sem formação específica e com poucos recursos para além da medicação e da contenção física.

Esse contexto ajuda a compreender por que a reforma psiquiátrica não foi apenas uma mudança técnica, mas uma ruptura profunda também para quem trabalhava no sistema. Antes mesmo de pensar no impacto sobre os pacientes, foi preciso que os profissionais atravessassem seus próprios medos, limites e dilemas éticos. É a partir dessa travessia, vivida por nomes como Wilson e Teresa, que se inicia a transformação do cuidado em Guarapuava.

No documentário que acompanha esta reportagem, Wilson aprofunda esse relato e descreve, em primeira pessoa, como era trabalhar na saúde mental antes da reforma psiquiátrica. Assista ao trecho do documentário:

O dilema do profissional veterano

Os profissionais com mais de duas décadas de serviço, foram testemunhas oculares da transição. Wilson Miguel Anciuti recorda o método de trabalho no antigo Hospital Santa Teresa, onde a superlotação e a falta de recursos transformaram a rotina em um ciclo de contenção. Ele cita que, muitas vezes, a equipe tinha que lidar com a mistura de pacientes com transtorno mental e usuários de SPA , sem estrutura adequada para a diversidade das demandas.

Essa experiência também atravessa a trajetória de Márcia Costa, assistente social há três décadas na área. Ela iniciou a carreira na psiquiatria hospitalar em 1995 e atuou por 22 anos na ala psiquiátrica do Hospital Santa Teresa, onde acompanhou de perto os limites do modelo centrado no internamento.

Embora o trabalho fosse realizado por equipes interdisciplinares e incluísse atendimentos em grupo e orientação às famílias, Márcia destaca que a principal fragilidade estava fora dos muros do hospital.

A gente sentia muita falta de um acompanhamento ambulatorial no pós-internamento. Muitos pacientes retornavam porque as famílias não tinham condições sociais ou emocionais de sustentar esse cuidado em casa”, explica.

O resultado era um ciclo de reinternações frequentes, especialmente em contextos de vulnerabilidade social e rompimento de vínculos familiares.

Como Funcionava o Modelo Hospitalocêntrico?

O modelo, anterior à Lei 10.216/2001, priorizava a internação em grandes hospitais psiquiátricos (muitas vezes de caráter privado e conveniado), com foco na cronificação dos pacientes. O tratamento era predominantemente medicamentoso, resultando em longas permanências e alto índice de abandono familiar, como detalhado no Relatório Final da 4ª Conferência Nacional de Saúde Mental. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o movimento antimanicomial globalmente o criticavam por gerar o que se chama de “morte social” do paciente.

A memória dos pacientes e a experiência dos profissionais de Guarapuava, portanto, não servem para chocar, mas para sublinhar a importância do que está sendo construído agora: um modelo que devolve o ser humano à cidade e o coloca de volta ao convívio, em vez de isolá-lo em uma ala distante.

Antes do Caps: memórias de quem viveu o modelo manicomial

A porta aberta do Caps II é um símbolo moderno, e que para os veteranos da saúde mental em Guarapuava, carrega o peso de uma memória que precisa ser revisitada para nunca mais ser repetida. Para os pacientes, o manicômio era, em primeiro lugar, a experiência da distância e do abandono.

Antônio Adilson da Conceição, carinhosamente conhecido como Toninho, hoje é um dos frequentadores mais ativos do Caps II. Com seu entusiasmo musical e artesanal, carrega consigo as cicatrizes de internamentos em hospitais psiquiátricos de outras cidades, como Londrina e Maringá, a mais de 400 quilômetros de Guarapuava.

Figura presente no Caps II há mais de 20 anos, Toninho viveu a transição do modelo hospitalocêntrico para o cuidado em liberdade. Sua história ilustra os efeitos da reforma psiquiátrica no município. Foto: Helena de Julio.

O internamento prolongado, exigido pelo modelo anterior, significava o corte total dos laços sociais.

“Três meses sem comer nada… comida azeda”, ele relata, com a voz embargada, sobre o período de isolamento. Mais do que a má condição da comida, o que feria era a ausência. A família, muitas vezes, não tinha condições financeiras ou logísticas de visitar, transformando a internação em uma pena de solidão.

Odail Marcos da Silva viveu a experiência do trauma físico. Ele narra um episódio onde foi agredido por outros pacientes e, como resposta, recebeu apenas a intervenção medicamentosa.

“Eu apanhei ali… apanhei, apanhei, apanhei, eu tomei medicação para dormir. Eu acordei… acordei e pedi: ‘Não me dá mais medicação para eu não ficar sonolento’”.

Odail no Caps II. Ele é um dos pacientes que encontraram no cuidado comunitário a possibilidade de reorganizar a rotina, construir vínculos e retomar habilidades. Foto: acervo pessoal CAPS II.

O modelo anterior ao Caps, era centrado na farmacologia e na contenção, relegando o acolhimento humano a um plano secundário. O foco não era o tratamento psicossocial, mas a gestão da crise através do controle químico e físico.

Do Prosam ao Caps: a construção local

Enquanto o Brasil debatia a Lei da Reforma Psiquiátrica (Lei 10.216/2001), Guarapuava ensaiava seus primeiros passos rumo à humanização. Em 1999, nasceu o Prosam (Programa de Saúde Mental).

Com o passar dos anos, porém, o programa passou a revelar limites estruturais. Em 2015, a Secretaria Municipal de Saúde confirmou sua incorporação definitiva ao CAPS II, seguindo orientação do Ministério Público. À época, o PROSAM reunia cerca de 2,5 mil pacientes cadastrados, mas conseguia atender apenas 400 por mês, com uma assistência centrada principalmente na entrega de medicamentos e pouca articulação terapêutica.

Evolução da saúde mental em Guarapuava: do modelo hospitalocêntrico às políticas comunitárias implantadas a partir dos anos 2000, com a estruturação do PROSAM, CAPS II e demais serviços da RAPS. Fonte: elaborado pelas autoras (2025).

A mudança não foi apenas administrativa. Representou uma reorientação do cuidado. A partir de abril daquele ano, os pacientes do PROSAM passaram a ser incorporados ao cadastro do CAPS II, passando a ter acesso a uma equipe multidisciplinar composta por médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais, além de atividades coletivas e acompanhamento contínuo.

Na prática, isso significou que usuários que antes se deslocavam apenas para buscar medicação passaram a ser acolhidos em um serviço de porta aberta, com avaliações clínicas integradas e participação em oficinas, grupos psicoterapêuticos, atendimentos familiares, visitas domiciliares e atividades comunitárias. O cuidado deixou de ser pontual e fragmentado para se tornar cotidiano e relacional.

A incorporação também exigiu uma reorganização física da rede. O CAPS II passou a funcionar em novo endereço, enquanto o CAPS AD foi transferido para o antigo espaço do PROSAM, garantindo a separação clínica entre o atendimento a transtornos mentais graves e persistentes e o cuidado específico a pessoas com sofrimento relacionado ao uso de álcool e outras drogas. A retirada de medicamentos foi centralizada na Farmácia da Gestão do SUS, ampliando o acesso e reduzindo filas em espaços de atendimento clínico.

Essa divisão não foi apenas burocrática; foi clínica e humana. Wilson explica que a separação permitiu um olhar direcionado: Pacientes com transtornos mentais no Caps II; e os usuários de SPA no Caps AD”. Para os funcionários, a transição gerou incerteza. Quando o Prosam fechou, Teresa achou que voltaria para sua unidade básica de saúde de origem. Mas a chefia da época viu nela algo que ela mesma ainda não enxergava: “Você tem perfil para trabalhar com saúde mental”.

Teresa em ação na Luta Antimanicomial, dialogando com a comunidade. A técnica de enfermagem participou da transição que transformou antigas internações em um cuidado cotidiano, próximo e comunitário. Foto: arquivo pessoal CAPS II.

Teresa ficou, e ajudou a estruturar o que viria a ser o novo modelo: um lugar onde os pacientes passavam o dia, tinham alimentação (café, almoço e lanche), horta comunitária e, principalmente, vínculo.

A gente estruturou tudo, uma equipe, e eu fui indo… E daquela época ainda a gente tem vários pacientes aqui.

A transição em Guarapuava prova que a reforma psiquiátrica não se faz por decreto, mas pela construção diária de equipes que aceitam o desafio de trocar o medo pelo cuidado.

Essa transição marcou, em Guarapuava, o abandono definitivo de um modelo centrado apenas na farmacologia e a consolidação de um cuidado territorial, contínuo e articulado. Mais do que extinguir um programa, o município redefiniu o percurso dos pacientes dentro da rede pública de saúde mental, um passo fundamental para que a reforma psiquiátrica deixasse de ser apenas diretriz nacional e se tornasse prática cotidiana.

O Prosam foi um marco. Foi dali que começaram a sair os moldes para o que viriam a ser os CAPS em nível nacional, orgulha-se Wilson. No entanto, esse ainda era um modelo de transição, em que a farmácia e o atendimento a usuários de SPA  e transtornos mentais funcionavam no mesmo espaço tumultuado.

Com a implementação oficial do Centro de Atenção Psicossocial (Caps II) a lógica do manicômio começou a ser efetivamente desmontada. O tratamento passou a acontecer em liberdade, com porta aberta, oficinas terapêuticas e convivência diária. O paciente deixou de ser apenas mais um número em um leito hospitalar para ser reconhecido como cidadão, alguém que retorna para casa ao fim do dia, circula pela cidade e mantém vínculos no território.

Esse novo modelo faz parte de uma rede mais ampla, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), organizada em diferentes tipos de CAPS, conforme a intensidade do cuidado. O CAPS I atende municípios menores e casos de menor complexidade; o CAPS II, como o de Guarapuava, acompanha pessoas com transtornos mentais graves e persistentes; o CAPS III funciona 24 horas por dia, inclusive com leitos de acolhimento noturno para crises mais agudas; e o CAPS AD é voltado especificamente ao cuidado de pessoas com sofrimento relacionado ao uso de álcool e outras drogas. Cada serviço responde a uma necessidade distinta, mas todos compartilham o mesmo princípio: tratar sem isolar.

No entanto, retirar o paciente do hospital não significa, automaticamente, devolvê-lo a um ambiente acolhedor. Dados nacionais mostram que o abandono familiar é um dos principais entraves à efetivação da reforma psiquiátrica no Brasil. Segundo estudos do Ministério da Saúde e do Conselho Nacional de Saúde, grande parte das internações prolongadas no modelo manicomial ocorreu justamente porque os vínculos familiares haviam sido rompidos, seja pelo estigma, pela pobreza ou pelo desgaste emocional acumulado ao longo dos anos. Mesmo com a desinstitucionalização, esse abandono persiste e se manifesta de novas formas.

É nesse ponto que a liberdade encontra seu limite mais cruel. Se o paciente não mora mais no hospital, onde ele vive quando a família já não consegue, ou não quer, acolhê-lo? Juliana de Fátima Araújo dá rosto a essa contradição. Seu sofrimento não se encerrou com o fim das internações distantes. Ele se deslocou para dentro de casa. Juliana perdeu a guarda da filha e convive diariamente com a violência verbal da própria mãe. “Minha mãe me chama de louca”, relata.

A fala de Juliana escancara uma dimensão central da luta antimanicomial: o manicômio não é apenas um prédio com grades. Ele sobrevive no estigma, na rotulação e na rejeição cotidiana. Quando a casa se torna um espaço hostil, o tratamento em liberdade corre o risco de se transformar em abandono.

A pergunta que atravessa o cuidado em liberdade é inevitável: se o paciente não mora mais no hospital, onde ele vive quando os vínculos familiares foram rompidos pelo tempo, pelo estigma e pela violência institucional? Em Guarapuava, uma das respostas a esse desafio está nas Residências Terapêuticas, serviço que integra a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e funciona como alternativa de moradia para pessoas com transtornos mentais graves e persistentes.

As Residências Terapêuticas não são unidades de tratamento clínico, mas casas inseridas na comunidade. Nelas, os moradores vivem uma rotina semelhante à de qualquer domicílio urbano, com acompanhamento contínuo de equipes de saúde. O objetivo não é substituir a família, mas reconstruir condições mínimas de vida cotidiana, autonomia e pertencimento social para pessoas que passaram por longos períodos de internação psiquiátrica ou tiveram seus vínculos familiares fragilizados ou rompidos.

ENTENDA A REDE (RAPS)
Para que a reforma funcione, o CAPS não pode atuar sozinho. Ele faz parte de uma engrenagem maior chamada Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Uma das peças fundamentais dessa rede, e vital para o futuro da saúde mental em Guarapuava, é o dispositivo de moradia:

O que é o Serviço de Residência Terapêutica (SRT)?
O Serviço de Residência Terapêutica (SRT) ou Residência Terapêutica (RT) foi instituída pela Portaria nº 106 GM/MS, em fevereiro de 2000, como parte integrante da Política de Saúde Mental do Ministério da Saúde. A Portaria de Consolidação N° 3, de 2017, Anexo V – Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), no Título V, referenda os SRT como parte integrante da RAPS, sendo um dispositivo estratégico no processo de desinstitucionalização.

Caracteriza-se como moradia inserida na comunidade destinada às pessoas com transtorno mental, egressas de hospitais psiquiátricos e/ou hospitais de custódia, que garanta o convívio social, a reabilitação psicossocial e o resgate de cidadania do sujeito, promovendo os laços afetivos, a reinserção no espaço da cidade e a reconstrução das referências familiares.

O Caps hoje: rotina, equipes, práticas de cuidado

Se o modelo hospitalocêntrico era definido pela contenção, o Caps II de Guarapuava se define pela fluidez. A chegada pela manhã é um ritual de acolhimento. Não há portas trancadas, e sim um portão aberto que convida à participação. O cheiro do lanche e de amor coletivo substitui o cheiro de hospital, e os corredores estão tomados por vozes e risadas, uma cena que desfaz o mito do “louco” isolado.

A equipe do CAPS II Guarapuava é multiprofissional, contando com médicos , psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais, focada no atendimento a pessoas com sofrimento mental grave e persistente, sob a coordenação da Assistente social Silmara de Paula da Cruz, oferecendo cuidado contínuo e atividades terapêuticas, com endereço na Rua Padre Chagas, 2568, Centro. Foto: arquivo pessoal CAPS II.

A rotina diária no CAPS II inclui:

  1. Acolhimento: Recebimento dos pacientes e acompanhamento de sua condição clínica no momento.
  2. Consulta Interdisciplinar: Atendimento por psicólogos, assistentes sociais, técnicos de enfermagem e médicos.
  3. Oficinas Terapêuticas: Atividades de socialização, arte e reabilitação psicossocial.

Atividades e momentos que fazem parte do cotidiano do CAPS II: oficinas terapêuticas, eventos comunitários, ações de conscientização e celebrações que reforçam o cuidado em liberdade e o vínculo entre pacientes, equipe e comunidade. Foto: arquivo pessoal CAPS II.

A importância da equipe não está na rigidez, mas na capacidade de adaptação e na “leitura” do ser humano. O Caps II funciona segundo o princípio da porta aberta, onde o paciente é acolhido imediatamente em momentos de crise, evitando o ciclo de internações hospitalares.

Wilson e Teresa, como profissionais de base, desenvolveram um conhecimento íntimo dos pacientes. Wilson explica que a diferença do cuidado hoje é saber lidar com uma crise sem recorrer à força, focando no diálogo e no afeto. “O Toninho, se ele fica muito eufórico, a gente sabe como lidar. Não precisa de contenção, não precisa de agressão. É um copo d’água. É a palavra. É o respeito” , relata Wilson.

Wilson e Teresa, dois dos profissionais mais antigos do CAPS II, se abraçam durante a confraternização. Juntos, eles acompanharam a transformação da saúde mental em Guarapuava e marcaram a vida de centenas de pacientes. Foto: acervo pessoal CAPS II.

Teresa reforça a ideia de que o relacionamento é a medicação mais eficaz. Ela sabe que precisa se doar, ouvir e, acima de tudo, não julgar. O Caps se transforma, assim, no principal território de convivência para muitos que não possuem mais suporte familiar. Ele representa a vanguarda do cuidado comunitário: um modelo que trata a saúde mental não como um mal a ser isolado, mas como uma condição humana a ser acolhida e integrada à cidade.

Quando a rede aprende a trabalhar junta

Se a reforma psiquiátrica propôs romper com o isolamento dos pacientes, ela também exige o fim do isolamento entre os próprios serviços de saúde. Em 2025, Guarapuava deu um passo inédito nesse sentido ao iniciar, pela primeira vez, um processo de matriciamento em saúde mental envolvendo toda a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).

A iniciativa, coordenada pela Secretaria Municipal de Saúde, reúne equipes especializadas dos CAPS, profissionais da Atenção Básica e outros pontos da rede para discutir fluxos de atendimento, construir projetos terapêuticos conjuntos e compartilhar a responsabilidade pelo cuidado de pessoas em sofrimento psíquico. Diferente do modelo tradicional de encaminhamentos fragmentados, o matriciamento aposta em uma atuação integrada, horizontal e contínua, em que os serviços dialogam entre si antes, durante e depois do atendimento.

Na prática, isso significa que casos complexos deixam de ser empurrados de um serviço para outro. As equipes passam a discutir juntas as melhores estratégias de cuidado, respeitando a singularidade de cada paciente e fortalecendo o vínculo com o território.

O matriciamento prevê encontros semanais até outubro de 2025, contemplando todas as unidades da Atenção Primária do município. As ações incluem discussões de casos, interconsultas, visitas conjuntas e educação permanente, reforçando um cuidado mais resolutivo e menos burocrático.

Ao integrar profissionais que historicamente atuavam de forma isolada, o matriciamento aponta para um futuro em que a saúde mental não depende apenas de um serviço específico, mas da capacidade coletiva da cidade em cuidar.

As vozes dos pacientes – Dor, resistência e reconstrução

A essência da reforma psiquiátrica reside na crença de que todo indivíduo, mesmo em sofrimento mental intenso, é um sujeito de direitos e possui uma história complexa. No Caps II de Guarapuava, essas histórias se desdobram diariamente, revelando uma luta que é travada não apenas contra o transtorno, mas principalmente contra o estigma social. Os depoimentos dos pacientes são a parte mais sensível e vital desta reportagem, pois resgatam a humanidade que o modelo manicomial lhes roubou.

Juliana traz um relato que atinge o cerne da desinstitucionalização: o Caps se torna o porto seguro quando a própria família se torna o manicômio. A dor é a da maternidade negada e do julgamento cruel. Ela perdeu a guarda da filha e vive o tormento de ser constantemente rotulada dentro do seu próprio lar.

A agressão verbal dentro de casa, vinda da principal referência afetiva, faz com que a convivência com os colegas e profissionais seja a única forma de sanidade. No Caps, Juliana encontra o espelho de que Wilson fala: um lugar que a enxerga por dentro. É um espaço de resistência contra a tentativa de terceiros, inclusive familiares, de tirá-la de lá. Ela sabe que ali, ela é protegida e reconhecida. 

“Eu estou no CAPS, tenho as ‘tias’ lá [as funcionárias]. Enquanto tô indo para o Caps, sim, to ‘louco de bem’ lá. Não podem falar nada”. 

O relato de Juliana é um grito silencioso que exige uma reflexão: a sociedade está preparada para receber aqueles que o Caps resgata?  Ela está pronta para conviver com quem sobreviveu ao abandono produzido por essa mesma sociedade?

Enquanto Juliana luta pelo direito de permanecer onde é cuidada, Odail caminha em outra direção da mesma história: a da autonomia reconquistada. Após o trauma do isolamento e da agressão física no modelo antigo, ele encontrou no Caps a ferramenta para se religar à cidade. A maior conquista não é clínica, mas social: ele tem orgulho de mostrar a sua carteirinha de transporte, e de usá-la.

Ele, que mora no Jardim Eucaliptos, uma área distante, pega o ônibus sozinho. O gesto, aparentemente banal, simboliza o rompimento definitivo com a tutela e o retorno a uma cidadania plena. 

“A moça [do Caps] veio e me fez a carteirinha. Agora eu pego o ônibus. Eu vou ali [na porta do Caps] e espero o Pérola do Oeste e vou embora sozinho”.

 A conquista da mobilidade e do orgulho de ir e vir sozinho transforma Odail de paciente passivo em sujeito ativo da sua vida. Juliana e Odail caminham por direções diferentes, contudo, se encontram no mesmo ponto: ambos são provas de que o Caps não apenas trata, mas devolve caminhos. E, às vezes, devolve o próprio direito de caminhar.

Toninho, com a vivacidade que exibe nas oficinas, demonstra como o centro ressignifica a memória. Embora carregue a dor dos internamentos longínquos e da comida azeda, sua narrativa hoje é dominada pelo presente. Para ele, o Caps é um lugar de alegria e de melhora cognitiva.

“A minha memória melhorou muito. Aqui é alegria. A gente canta, a gente dança. É muito bom”.

A capacidade de se lembrar da alegria e de focar no convívio, em vez de reviver o trauma, é o sucesso mais sutil e profundo do tratamento em liberdade.

Toninho na festa junina do Caps II, em 2025. Entre músicas, danças e convivência, ele expressa o que define como sua maior conquista: a alegria no presente e a melhora da memória proporcionadas pelo cuidado em liberdade. Foto: acervo pessoal CAPS II.

Desafios atuais: o que ameaça o modelo em Guarapuava e no Brasil

Apesar do sucesso em desconstruir o manicômio social e garantir a dignidade dos pacientes, a reforma psiquiátrica em Guarapuava e no Brasil vive sob ameaça constante. A luta é diária e se concentra em três frentes: o financiamento, o estigma social persistente e as políticas de retrocesso.

A reforma psiquiátrica tem enfrentado cortes e a descontinuidade de políticas públicas. A manutenção dos Caps, Residências Terapêuticas (SRT) e Unidades de Acolhimento exige um financiamento constante e robusto.

A assistente social Márcia sinaliza que o abandono de tratamento ocorre frequentemente por falta de suporte social, que deveria ser suprido por programas governamentais que vão além do Caps, como benefícios sociais e apoio habitacional. Quando esses recursos falham, o tratamento comunitário fica fragilizado.

A maior ameaça de retrocesso no cenário nacional é a expansão do financiamento para Comunidades Terapêuticas (CTs), muitas vezes de caráter religioso, que operam com foco na abstinência e métodos que, segundo o movimento antimanicomial, se assemelha ao antigo modelo asilar, contrariando a Lei 10.216/2001.

A demanda por saúde mental aumentou drasticamente no período pós-pandemia. O confinamento e a crise econômica amplificaram os transtornos, sobrecarregando equipes que já operavam no limite. Simultaneamente, o estigma social continua sendo um muro a ser derrubado. O relato de Juliana, que ouve em casa ser chamada de “louca”, demonstra que a desinstitucionalização é um processo que precisa ocorrer na rua, no trabalho e, sobretudo, no seio familiar. Enquanto a sociedade não acolher, o trabalho do Caps será sempre um resgate temporário.

“A gente não é agressivo, a gente só precisa de cuidado. Eu não sou louca, eu sou humana”Juliana de Fátima.

A luta em Guarapuava não é apenas pela manutenção dos serviços, como também pela garantia de que a liberdade conquistada pelos pacientes não seja sabotada pela falta de estrutura social e pelo retorno de práticas de isolamento em novas roupagens.

Ao final de cada manhã, quando o corredor do Caps II começa a esvaziar, é possível perceber que há algo ali que não cabe nas estatísticas, nem nos relatórios, nem nas legislações que tentam dar forma ao que, na verdade, só existe no encontro entre pessoas. É nesse intervalo, entre a porta que permanece aberta e o portão que se fecha devagar, que a reforma psiquiátrica se materializa. Não como política, mas como prática diária de resistência.

A sobrevivência desse modelo, no entanto, não é garantida. Ela depende de financiamento contínuo, de equipes estáveis, de uma rede articulada e, sobretudo, de uma sociedade capaz de reconhecer que saúde mental não é um apêndice dos serviços públicos, mas seu centro. Os Caps de Guarapuava não são apenas equipamentos da Raps: são espaços onde vidas interrompidas encontram possibilidade; onde vínculos rompidos começam, aos poucos, a se recompor; onde o sofrimento psíquico deixa de ser sinônimo de exílio e volta a ser entendido como parte da condição humana.

O que acontece dentro dessas paredes, e fora delas, quando a equipe atravessa a cidade em visitas, acolhe crises, reivindica direitos, enfrenta o preconceito, é um trabalho que raramente ganha manchetes. No entanto, é ele que sustenta, silenciosamente, a promessa que o país fez há mais de vinte anos: a de nunca mais trancar pessoas porque não soubemos acolhê-las.

Por isso, ao mesmo tempo que esta reportagem revisita o passado e expõe os desafios do presente, ela também faz um pedido: que cada morador, cada gestor, cada profissional da saúde e cada família compreenda que os Caps não são “lugares para os outros”. São equipamentos que pertencem à cidade inteira.

Se cuidam de alguns, é para proteger todos. Se fortalecem vínculos, é para manter a comunidade de pé. E, se funcionam com portas abertas é porque, historicamente, fomos nós, sociedade, que fechamos todas as outras.


Toninho, antes de ir embora, nos disse que ali “não tem medo, tem gente”. Essa frase, tão simples, contém o que a reforma psiquiátrica tentou ensinar ao Brasil inteiro: que ninguém se trata sozinho. Que ninguém se cura isolado. E que a dignidade, quando oferecida com persistência, tem força de política pública.

Manter os Caps de Guarapuava vivos, financiados e respeitados é uma escolha ética, sobre o tipo de cidade que queremos ser. Sobre se preferimos repetir o passado ou sustentarmos, juntos, o futuro possível que já começou a acontecer ali, todos os dias, entre um abraço, um copo d’água, uma oficina, uma música e o portão que se abre antes do sol.

Para compreender mais profundamente a trajetória de Juliana, Odail, Toninho e de outros usuários da rede, o Prisma de Notícias produziu um documentário que amplia essas vozes e revela, em primeira pessoa, o impacto do cuidado em liberdade.

Assista ao documentário completo aqui: Link

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