Professora formada em geografia e história, e presidente do Instituto dos Povos Negros de Guarapuava e Microrregião, Elza de Farias, 63 anos, tem uma vida marcada pela luta contra o racismo e pelo desejo de construir uma sociedade mais justa, que reconheça a diversidade. Sua missão é transformar escolas em ambientes acolhedores e formar crianças e jovens conscientes e engajados.
Elza nasceu em São Jerônimo da Serra, mas foi criada em Piraí do Sul (ambas no Paraná). Filha de pai negro e mãe parda, em uma família de nove irmãos, conheceu as necessidades financeiras desde muito cedo e seu entendimento é que teria que trabalhar para ajudar em casa. Seu pai foi quem a incentivou aos estudos, pois acreditava que eles poderiam oferecer melhores condições de vida à filha.
Apesar de saber ler e escrever antes mesmo de entrar na escola, foi no contexto educacional que Elza conheceu algo que seria muito latente em sua trajetória: o preconceito racial. Chegou a ouvir de uma professora que ela deveria estar trabalhando de doméstica e sugeriu que largasse os estudos.
A afirmação era um reflexo do preconceito que existia em relação às pessoas negras, que não tinham o direito de aprender e muito menos expectativas projetadas de que poderiam prosperar ao longo da vida. Mesmo assim, Elza seguiu nos estudos, mas enfrentando dificuldades que outras crianças que dividiram a sala de aula com ela não tinham.
No ensino fundamental, precisou conciliar a rotina de estudos com o trabalho, sendo empregada doméstica de uma professora. “Na realidade, ela valorizava a educação, mas mais que a educação, ela achava que eu tinha que trabalhar”, relatou Elza.
Foi então que ela começou a ter o entendimento do racismo, pois seu pai já alertava que ela, como uma criança preta em um país racista, encontraria muitas dificuldades na escola. “Eu sofri o racismo, só que eu me sentia impotente, porque enquanto eu não chegasse a ter uma ascensão social, eu não ia ter direito a fala, direito à cidadania, direito de direito”, contou.

Novamente, os estudos colocaram Elza em outra direção. Prestou vestibular para o curso de licenciatura em geografia e história na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Guarapuava (Fafig), e se mudou sozinha para a nova cidade. Enquanto dedicava-se aos estudos, trabalhou no Hospital São Vicente de Paula e na Prefeitura Municipal de Guarapuava.
Ao observar o ambiente acadêmico, se deu conta que não tinha representatividade negra em seus professores e nem disciplinas que ensinavam sobre a história e cultura do povo negro. Se encontrou muitas vezes isolada, sendo a única negra em sua turma e tinha que fazer os trabalhos da faculdade sozinha.

“Eu tinha o entendimento da negritude, eu tinha o reconhecimento da pele da negritude, eu tinha base que veio do meu pai, mas eu não tinha a compreensão ainda de como fazer esse enfrentamento”.

Virada de chave
Ao término do curso, em 1985, Elza foi convidada para trabalhar como professora em Rondônia, onde ficou por oito anos. Lá, ela teve a compreensão sobre o seu papel e a necessidade do enfrentamento contra o racismo. “Foi aí que me dei conta que eu precisava fazer alguma coisa”, afirmou.
No Norte do país, Elza não só educava como também se tornou um modelo para crianças negras que a viam como um espelho de suas próprias lutas e aspirações. Ela abraçou a responsabilidade de ser um exemplo de resistência e superação, sempre pautando suas ações na legalidade e na busca por justiça.
“Naquele papel que eu estava de professora, era um modelo para outros alunos. Nesse modelo, a criança que sofre o racismo bate na sua porta porque é você que a representa. Ela vê você como se fosse um espelho, se eu estou passando isso aqui, essa pessoa dessa cor, desse tom, dessa negritude, também já passou, então como ela vê, como ela se defende, como ela chegou até aqui importa. Aí eu comecei a fazer enfrentamento”, contou Elza.
Após oito anos, a agora professora retornou a Guarapuava, onde foi aprovada em um concurso público. Mesmo efetiva em uma função, o preconceito racial que havia marcado sua trajetória desde a infância retornou.
Sua chegada ao sul do país foi recebida com desprezo por parte da diretora da escola, que ao se deparar com Elza, julgou sua aparência e seu tom de pele. Esse momento foi um choque para ela, que se deu conta que teria que fazer um trabalho mais amplo, de conscientização. Na nova vida, iniciou grupos de estudo, promoveu o letramento racial e buscou maneiras judiciais de como se proteger e se defender do racismo que via diariamente dentro da escola.
“Chegou o momento que o aluno escreveu no quadro antes de eu entrar “power white” e eu fiquei pensando: ‘meu Deus do céu, o quanto nós falhamos enquanto educação, de trabalhar uma diversidade, de combater o racismo’”.
Sem desistir, ela se dedicou a formar grupos dentro das escolas para discutir essas questões, se posicionando quando deveria e se colocando como modelo e exemplo para os alunos e os professores.
O racismo disfarçado persiste
A professora critica a sutileza com que o racismo se manifesta na sociedade, muitas vezes disfarçado de brincadeira ou piada, mas que deixa feridas profundas para quem sofre. Elza destaca a persistência do racismo em diversas formas, desde ameaças até o genocídio e a violência. Para ela, confrontar essas atitudes não é apenas necessário, mas uma questão de dignidade e respeito pela própria identidade e pela comunidade negra.
Ela também diz que é vista pelas pessoas quando faz enfrentamento como a “briguenta”, a “louca”, a que “quer mandar”, “aquela que quer colocar o negro goela abaixo”, “aquela que não sabe o lugar dela”.
“A última vez que eu escutei: “já vem aquela que não sabe o lugar dela”, eu falei pra pessoa: ‘você vai falar qual é o meu lugar, num país que você tem a mesma nacionalidade, num país que a constituição diz que você tem os mesmos direitos, que você tem igualdade, pelo tom da pele ali não é o meu lugar, então onde é o meu lugar?’ Você tem que mostrar o meu lugar e um lugar que eu possa viver com dignidade, com compromisso, com responsabilidade, mas principalmente com respeito pela minha cor, pelo meu cabelo, pelo que eu sou como pessoa, como eu sou como mulher, como eu sou como profissional”.
Conquistas e realizações
A partir de 2010, Elza percebeu que não existia na cidade um grupo que pudesse combater o racismo de maneira jurídica e estruturada. Por isso, teve a iniciativa de formar um instituto com o apoio de outras pessoas que tinham objetivos semelhantes, dando início ao processo no cartório, com a documentação que necessitava.
As dificuldades enfrentadas na formalização de um instituto antirracista revelaram preconceitos enraizados na população, com barreiras impostas por discriminação, que era simbolizada em comentários que questionavam a presença dos negros em Guarapuava.
Ela contou que toda semana a documentação voltava, e a alegação era que um nome estava errado, na outra semana era porque um endereço estava errado, até que um dia ela questionou a advogada do porquê não estava dando certo.
“‘Eu acho tão estranho essas situações que todo dia, toda semana você vem que não deu certo por um determinado motivo’. Na semana seguinte ela veio e disse pra mim: ‘eu não quero que a senhora fique decepcionada, mas posso te contar uma coisa, hoje eu ouvi a frase: Por que um instituto que vem a trabalhar demandas racistas? Por acaso, a partir de agora, os negros querem tomar o lugar dos brancos aqui em Guarapuava?’”, relata.
Ao ouvir isso, o choque de Elza foi evidente, mas ela não se deu por vencida e continuou tentando criar o instituto, que se fazia mais do que nunca necessário em Guarapuava.
Em uma reunião na prefeitura em 2017, mais comentários preconceituosos apareceram de pessoas que ela não esperava. Um vereador falou: “você ainda tá insistindo com essa questão de negro? você não vê que você tá sozinha? quem que tá aí com você?”.
Aquele comentário não saiu da sua cabeça. “Eu falei: vou mostrar pra esse moço que o povo negro pode ser organizado, que o povo negro pode ter voz e precisa ser ouvido, que não é a Elza, não tô falando por mim. Então eu voltei a procurar um advogado para fazer todo o processo para criar o instituto. O meu foco era formar um grupo forte para que esse grupo pudesse dar suporte, fazer enfrentamento, dar curso de letramento, acalentar o jovem, orientar, trabalhar cultura, para que esse grupo tenha acesso a políticas públicas”, diz Elza.
A determinação de Elza finalmente levou à legalização da organização do povo negro em Guarapuava. A confirmação veio em novembro de 2023, uma conquista histórica após uma década de esforços. Essa vitória não é apenas um marco para Elza, mas um legado para toda a comunidade negra da cidade.
“Depois de 10 anos, eu não fiz um nome, porque dessa pauta você não faz um nome. Dessa pauta você orienta pessoas que, tendo seus anseios atendidos, reconhecem o teu valor”.

E em 21 de novembro de 2024, a atuação do Instituto dos Povos Negros de Guarapuava e Microrregião alcançou um novo patamar ao ser reconhecida oficialmente como utilidade pública municipal.
A medida foi sancionada pelo Poder Executivo após aprovação do Legislativo, por meio de lei que reconheceu o IPONG como uma associação sem fins lucrativos dedicada à promoção da cidadania da população afrodescendente.
O texto legal destaca como objetivos centrais o combate à discriminação racial, social e cultural, a valorização da cultura afro-brasileira e o fortalecimento de ações afirmativas voltadas à igualdade de oportunidades e direitos.
A atuação do Instituto de Povos Negros de Guarapuava (IPONG) também se materializa em conquistas concretas no campo institucional. Um exemplo é a aprovação da Lei Municipal nº 195/2025, que autoriza o Poder Executivo a construir um monumento no Parque do Lago em homenagem à população africana e afrodescendente que contribuiu para a formação e o desenvolvimento do município.
A medida representa um avanço simbólico e político na luta por reconhecimento histórico, ao inscrever no espaço público a memória de grupos que, por décadas, tiveram sua presença invisibilizada. Para o IPONG, a lei reforça a importância de políticas de reparação e valorização da identidade negra, conectando educação, cultura e pertencimento como pilares do enfrentamento ao racismo estrutural em Guarapuava.
Apresentado pela vereadora e professora Terezinha dos Santos, o projeto de lei que autoriza a construção de um monumento em homenagem à população africana e afrodescendente em Guarapuava representa, segundo ela, mais do que uma obra simbólica.
“Essa lei é muito importante porque ela traz o reconhecimento, a consideração, a legitimidade para essa população que contribuiu sim com a construção de tudo que é hoje a nossa cidade e traz a representatividade das pessoas negras também se enxergar nesse movimento e saber que seus antepassados tiveram essa importância histórica social, cultural e que está registrado sim na história do nosso município”, afirmou a vereadora.
Nesse sentido, a conquista articulada pelo IPONG se insere como um marco no enfrentamento ao apagamento histórico e na valorização da memória coletiva.
Na avaliação da vereadora, o Instituto dos Povos Negros de Guarapuava (IPONG) cumpre um papel importante nesse processo de organização e fortalecimento das lutas antirracistas. Ela destaca que o instituto se consolida como uma ferramenta fundamental para articular demandas históricas da população negra, especialmente daquelas que vivem em regiões periféricas, marcadas por desigualdades sociais e estruturais.
“O Instituto é uma ferramenta que eu considero para esses movimentos poder se organizar e poder ter uma instituição com quem contar e pra ter o apoio também”, pontua. Para a parlamentar, iniciativas promovidas pelo instituto ajudam a aproximar as pautas sociais do debate público e reforçam a necessidade de ampliar o diálogo entre os movimentos negros e o Legislativo, contribuindo para a construção de políticas mais representativas e inclusivas no município.
E a professora Elza nunca esteve sozinha
Ao lado dela, outras trajetórias também se entrelaçam na luta contra o racismo em Guarapuava, como a de André Luiz da Silva, 53, educador, agente cultural e um dos articuladores do Instituto dos Povos Negros de Guarapuava (IPONG). Negro e periférico, ele carrega na própria história as marcas de um racismo que, segundo relata, se manifesta desde a infância e se atualiza diariamente, seja de forma explícita ou estrutural.
“Toda criança preta ou parda tem em seu caminho um grande desafio: superar as mazelas da vida e os preconceitos, que são trazidos e passados de geração em geração”, afirma.
Ao longo da vida, os olhares desconfiados, a vigilância em espaços públicos e a exclusão em ambientes considerados hegemônicos tornaram-se experiências recorrentes, especialmente após sua chegada a Guarapuava, cidade marcada por fortes heranças coloniais e conservadoras. Ainda assim, foi nesse contexto que ele encontrou, junto à professora Elza, o impulso para transformar dor em organização coletiva e resistência.
Foi em 2011, durante uma passagem pelo Colégio Estadual Ana Vanda Bassara, em Guarapuava, que ele conheceu a professora Elza e encontrou, segundo suas palavras, um alento.
A partir desse momento, os dois passaram a dialogar sobre a urgência do enfrentamento ao racismo e, em 2013, na casa dela, surgiu a ideia de estruturar o Instituto dos Povos Negros de Guarapuava (IPONG), projeto que enfrentaria anos de barreiras até se consolidar oficialmente em 2023, quando o instituto conquistou o CNPJ e passou a atuar com maior segurança jurídica.
André também encontrou na educação um caminho de enfrentamento às desigualdades. O acesso à formação acadêmica, no entanto, não foi simples. Ao entrar na faculdade aos 35 anos, ele relata que precisou atravessar obstáculos que vão além das exigências do ensino superior, enfrentando o racismo estrutural que, muitas vezes, dificulta a permanência de pessoas negras nos espaços universitários.
“Éramos dois (eu e a professora Elza) a entrar em ambientes hegemônicos, foi duro e com muitas barreiras, mas conseguimos galgar nosso espaço”, relembra. A conquista do diploma, para ele, não se limita a uma realização pessoal, mas simboliza um avanço coletivo, que fortalece e inspira outras trajetórias.

Paralelamente à formação, André é mestre de capoeira e estruturou em 2009 na cidade um projeto social de capoeira voltado a crianças e adolescentes. A iniciativa nasce da compreensão de que a luta antirracista também se constrói no cotidiano, a partir da infância
“Na construção do caráter das crianças está a nossa luta, para que aqueles que vêm depois de nós encontrem um mundo menos preconceituoso e mais fraterno”, afirma. No projeto, a capoeira se torna ferramenta de disciplina, pertencimento e valorização da cultura negra, oferecendo um espaço de acolhimento e resistência para jovens que, muitas vezes, estão expostos à exclusão social.
Na trajetória de André, o Instituto dos Povos Negros de Guarapuava (IPONG) ocupa um papel central. Ele destaca que a consolidação do instituto representa a chance de enfrentar, de forma coletiva e organizada, uma narrativa histórica que insiste em retratar a população negra como desprovida de cultura, educação ou contribuição social.
Para ele, o IPONG surge justamente para desconstruir essa lógica, afirmando saberes, ancestralidades e práticas que sempre existiram, mas foram silenciadas. Ao transformar vivências marcadas pela exclusão em ações concretas, o instituto fortalece a luta antirracista no município e amplia caminhos para que outras gerações encontrem reconhecimento, pertencimento e dignidade.
Identidade, Luta e o Instituto de Povos Negros (Ipong)
O sucesso em estabelecer o instituto após anos de esforço é uma prova da importância da união na luta contra o racismo. E os primeiros frutos dessa perseverança já são colhidos em Guarapuava. Dividindo a luta contra o racismo, Maria Luciana Diamant, 62, encontrou acolhimento e força ao lado de uma comunidade cada vez mais forte.
Adotada aos seis meses por uma família branca de descendência holandesa e italiana, Maria Luciana, filha de pais biológicos negros, confrontou desde cedo as questões de diferença racial. Apenas aos oito anos a adoção foi revelada para ela.
“Eu sempre questionava porque os meus irmãos eram brancos e eu era de outra cor. Por que eu era preta?”. Esse processo de reconhecimento (e falta dele) resultou em uma adolescência marcada pela rebeldia e pela dificuldade em aceitar sua origem e a separação motivada pela vulnerabilidade social de seus pais biológicos. Contudo, a maturidade trouxe a reconciliação. “A gente vai ficando mais velha, vai priorizando e dando sentido às coisas que acontecem em nossa vida”.
Para essa mudança, Maria Luciana conta que o ambiente acadêmico foi decisivo, e ao mesmo tempo cercado de preconceitos. Assim como Elza e André, buscou na educação a possibilidade de transformar a sua realidade e, em 2023, formou-se em Direito. Mesmo vivendo uma realidade diferente da professora que a inspirou, relata muito dos desafios de antigamente em seu cotidiano.

“Dava para contar nos dedos quantas pessoas pretas estavam lá se graduando em algum curso. Aí você começa a analisar o quanto é difícil uma pessoa de cor se graduar em alguma faculdade”. E não é apenas a falta de acesso ao ensino superior, e sim outros desafios que aumentam os obstáculos.
“As pessoas negras têm que trabalhar mais, tem que provar-se. Ou seja, as pessoas de cor sempre são muito mais cobradas”. Maria Luciana defende que a mudança dessa concepção é um processo longo, um “trabalho de formiguinha”, que exige mais equidade.
Racismo estrutural é realidade para negros de Guarapuava
O racismo no Brasil não se manifesta apenas por meio de ofensas diretas ou atos isolados de discriminação. Ele está presente na forma como a sociedade se organiza, se reproduz e distribui oportunidades. Esse fenômeno é conhecido como racismo estrutural, um conceito amplamente discutido por pesquisadores das áreas de ciências sociais, educação e estudos raciais.
De acordo com estudos acadêmicos, o racismo estrutural se refere a um conjunto de práticas históricas, sociais, políticas e econômicas que colocam a população negra em desvantagem sistemática, mesmo quando não há uma intenção explícita de discriminar. Ele se expressa no acesso desigual à educação, ao mercado de trabalho, à saúde, à moradia e à representação política.
No Brasil, país marcado por mais de três séculos de escravidão, essas desigualdades não foram superadas com o fim legal do regime escravocrata. Ao contrário, a ausência de políticas de inclusão após a abolição contribuiu para a marginalização da população negra, criando um cenário em que o racismo se perpetua de forma naturalizada no cotidiano.
Embora muitas vezes tratado como algo subjetivo ou “opinião”, o racismo é crime previsto em lei. A Lei nº 7.716/1989 define os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, com penas que variam de um a cinco anos de reclusão, além de multa, a depender da gravidade da infração. Em 2023, o Supremo Tribunal Federal equiparou o crime de injúria racial ao crime de racismo, tornando-o imprescritível e inafiançável.
Nesse sentido, a filósofa e pesquisadora Djamila Ribeiro escritora do Pequeno manual antirracista (2019), destaca que o racismo também se manifesta de forma simbólica e cotidiana, nas oportunidades negadas, nos estereótipos e nos silenciamentos, o que evidencia a necessidade de ações que promovam conscientização, educação e representatividade. Assim, iniciativas culturais e educativas se apresentam como ferramentas fundamentais para transformar realidades que a legislação, isoladamente, não alcança.
O racismo estrutural é uma (infeliz) realidade para Maria Luciana. “Ele está presente em minha vida desde a minha infância. Guarapuava é uma cidade que a gente percebe que é bem racista, ela olha você, ela te julga”.
Esse julgamento é maior quando Maria Luciana reforça aspectos de sua ancestralidade em seu dia a dia, como é o caso do uso de turbantes e roupas afro, uma afirmação de identidade, atraindo comentários preconceituosos.
“Já me perguntaram porque eu uso turbante se eu sou macumbeira”.
A segregação é palpável e percebida em pequenos e grandes gestos.
“Você entra em mercado, na loja, você será seguida. Quando eu estou com meu marido, o atendimento é um. Quando eu estou sozinha, o atendimento é outro. E acho até engraçado. Aí ele tem que ser meu guarda-costas”. Ela conclui que a sociedade carece de letramento racial, pois “as pessoas não têm noção ainda de todos esses assuntos”.
Seu ativismo fica canalizado no Ipong, visto como um espaço vital para o enfrentamento. Ela apoia a missão da presidente Elza de Farias e busca cumprir os objetivos propostos desde o momento da criação.
Por isso, advoga pela representatividade, propondo a criação de uma Miss Afro, por exemplo, além de reiterar a crítica à restrição da memória negra ao mês de novembro. “A gente tem que lembrar que nós somos negros o ano inteiro, não é só no mês de novembro”.
Através de oficinas de ancestralidade e máscaras africanas, também busca educar, pois acredita que a partir do momento que a cultura e a história de um povo são conhecidas e reconhecidas, o respeito acontece.
Do Conselho de Igualdade Racial em Guarapuava ao movimento hip-hop
Criado como um espaço institucional de diálogo e formulação de políticas públicas, o Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Guarapuava (COMPIRG) reúne representantes do poder público e da sociedade civil organizada, entre eles integrantes de coletivos culturais, movimentos sociais e instituições como o Instituto de Povos Negros de Guarapuava (IPONG).
A presidente do conselho, Scheyla Oliver, 40, é produtora cultural e idealizadora do projeto Conexão das Periferias, que é um coletivo e movimento cultural criado na cidade com o objetivo de fortalecer a cultura urbana e dar visibilidade às periferias do município, a iniciativa atua a partir de expressões como o hip-hop, o rap, a dança de rua, o grafite e o skate, utilizando a arte e o esporte como ferramentas de integração social, pertencimento e valorização da identidade afro e periférica.
Com trajetória construída dentro do movimento hip-hop, ela atua há anos na luta antirracista no município, articulando cultura, educação e políticas públicas como ferramentas de enfrentamento às desigualdades históricas que atingem a população negra.

“São anos de resistência”, resume. O conselho, segundo ela, representa um marco importante para a promoção de políticas públicas voltadas às populações negras e a outros grupos historicamente marginalizados.
Entre as atribuições do COMPIRG estão o acompanhamento de ações governamentais, a deliberação sobre recursos e a implementação de legislações como a Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas.
Vinda do movimento Hip-Hop, ela defende que o segmento tem sido uma ferramenta central nesse processo, ela afirma que a cultura do hip-hop atua de forma transversal na construção de identidade, pertencimento e consciência social.
Para a vereadora Terezinha, o hip-hop deve ser compreendido como um movimento social que nasce da ausência de direitos básicos. Segundo ela, a cultura surgiu a partir da necessidade de jovens das periferias terem acesso ao lazer, à criatividade e à produção cultural, especialmente em territórios marcados por desigualdades históricas, sociais e econômicas.
“É um movimento social muito importante que tem trazido muitas contribuições em todos os espaços onde consegue se instaurar”, afirma. Na visão da vereadora, além de expressão artística, o hip-hop cumpre um papel político e educativo, ao criar possibilidades de pertencimento, organização coletiva e afirmação de identidades em contextos onde a estrutura material quase sempre é insuficiente ou inexistente.
Scheyla destaca que o fortalecimento do hip-hop em Guarapuava dialoga com conquistas nacionais recentes, como o decreto federal nº11.784 de fomento à cultura hip-hop, assinado em 2023, pelo Presidente Lula. A presidente também integra o Grupo de Trabalho Estadual do Hip-Hop (GTE Hip-Hop) e participa da Construção Nacional da Cultura Hip-Hop, que reúne representantes dos 26 estados e do Distrito Federal.
O diálogo com o poder público federal também tem sido estratégico. Ela relata encontros com ministras como Margareth Menezes, da Cultura, e Anielle Franco, da Igualdade Racial, que contribuíram para o avanço de pautas sociais no município. Ainda assim, reforça que os desafios permanecem.
“Eu acho que só vai institucionalizar realmente a partir do momento em que as políticas públicas, não somente para o hip-hop, mas para toda a população de minorias, ela só vai ser institucionalizada a partir do momento que as políticas públicas voltadas para nós, para essas pessoas, elas sejam políticas públicas de estado”, pontua.

Além da atuação institucional, o trabalho desenvolvido por Scheyla no Conexão das Periferias, segue presente na base da sociedade. Ações educativas alcançam desde a primeira infância até idosos, com foco na luta antirracista e no fortalecimento comunitário.
Um dos exemplos recentes foi a realização de um curso de comunicação comunitária, em parceria com a Fiocruz, a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e a Secretaria Municipal de Saúde de Guarapuava, que formou 24 jovens estudantes do ensino médio, parte deles hoje atuando junto ao coletivo e ao ponto de cultura.
Na avaliação da presidente do COMPIRG, a participação da população é fundamental para que o Conselho cumpra seu papel social. Ela reforça que o espaço é aberto à sociedade civil e que qualquer pessoa pode acompanhar as reuniões, apresentar demandas e contribuir com o debate público.
“As reuniões do conselho acontecem nas segundas-feiras na segunda semana de cada mês, então qualquer pessoa da sociedade civil pode participar, não vai ter direito a votação de algumas demandas, mas tem participação da sociedade civil sim. Inclusive eu oriento as pessoas que se identificam com cada segmento que tem dentro do conselho de igualdade racial, que é o hip-hop, capoeira, povos de terreiros, quilombolas, lgbts, então procure os conselheiros, leve suas pautas, suas sugestões, sua dúvida, que o próprio conselheiro pode levar como pauta pras reuniões”, orienta.
Segundo ela, é a partir dessa escuta coletiva que as demandas chegam ao poder público e se transformam em propostas de políticas públicas, fortalecendo a luta antirracista no município e garantindo que o conselho não seja apenas institucional, mas efetivamente participativo.
A música como destino desde a infância
Se de um lado, a luta antirracista avança pelos caminhos institucionais, ocupando conselhos, disputando políticas públicas e garantindo direitos, de outro ela também pulsa nas ruas, nos palcos e nas letras que ecoam das periferias. É nesse encontro entre militância e vivência que as trajetórias de Scheyla e do rapper Aliado Z se cruzam.
Enquanto Scheyla atua na articulação política e cultural por meio do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial e do Conexão das Periferias, Wesney Schiligoski, 35, mais conhecido como Aliado Z transforma a experiência cotidiana da população negra e periférica em rap, usando a música como ferramenta de denúncia, consciência e resistência.

Crescido em um ambiente onde a música era presença constante, o rapper conta que teve contato com a música desde muito cedo. Criado pela avó e convivendo com dois tios adolescentes, um fã de rock e outro de rap, ele sempre ouviu de tudo. “Sempre amei e convivi com a música de forma cotidiana”.
A lembrança mais antiga que tem de cantar vem da infância, quando tinha cerca de cinco ou seis anos. Criado em lar evangélico, participava dos cultos, solos e grupos musicais da igreja. “Minha avó brincava dizendo que comecei a cantar antes de falar”.
O primeiro rap surgiu aos 16 anos. Mas foi apenas em 2018 que o caminho se iluminou de vez, quando recebeu o convite de um artista renomado do rap guarapuavano para compor uma faixa para seu novo trabalho. Assim nasceu Revolução, interpretada por GK e lançada no programa Voz Ativa na Comunidade, da TV Humaitá. O videoclipe está disponível nas redes.
Durante a pandemia, continuou na música apresentando acústicos em bares. Mas o momento decisivo veio em 11 de agosto de 2023, quando foi convidado pelo rapper, agente cultural e apresentador WS Tiziu para participar da celebração dos 50 anos do hip-hop no Centro de Artes de Guarapuava. A apresentação, que foi com voz e violão, também marcou os 20 anos do programa Sintonia Hip-Hop do Manohood.
Na ocasião, tocou ao lado do percussionista e professor Clayton Silva, interpretando clássicos como Fim de Semana no Parque, dos Racionais, e A Vingança, do Face da Morte.
“Ali o rap deixou claro, de novo, que era o meu caminho. Decidi mergulhar de corpo e alma”, contou, destacando que entre suas influências, há presença forte de Racionais Mc’s, Jimi Hendrix, Jorge Ben Jor, Bob Marley, Cidade Negra e James Brown. “Busco inspiração em histórias de superação, naqueles que venceram apesar de um sistema racista e preconceituoso”.
Aliado Z explica que sua música carrega a luta do povo preto e periférico. Suas letras abordam incentivo, consciência, crítica social e combate ao racismo. “Não posso pensar que está tudo bem olhando a um palmo do meu nariz. Meu rap denúncia, instrui e leva ao raciocínio crítico e revolucionário”.
Ele se vê como parte da luta negra e periférica. Pardo, neto de homem negro, afirma que nunca enfrentou resistência dentro da cultura hip-hop por não ser retinto. “Dentro do hip-hop não existe espaço para preconceito, racismo ou exclusão”, observou.

Para ele, Sonhos é sua obra mais especial. Foi a primeira que gravou como rapper, pouco depois do show no Centro de Artes de Guarapuava. “Sonhos fala sobre todos os sonhadores. Quem deixa de sonhar, deixa de viver. O pesadelo já existe no dia a dia. Precisamos sonhar e correr atrás da realização”.
A dança como instrumento de combate ao racismo
As histórias de Elza, do André, da Maria Luciana, da Scheyla e de Aliado Z mostram como a resistência negra se expressa por meio da voz, da memória e da identidade. Mas a força transformadora da arte não toca apenas quem nasce dessas vivências: ela também inspira quem observa, aprende e se responsabiliza pelo entorno.
É nessa fronteira, entre pertencimento e compromisso, que encontramos Roberty Daniel Alves, um jovem de 27 anos que encontrou no breaking e na capoeira uma forma de afastar crianças e adolescentes das drogas e mostrar que a arte é um caminho que salva, acolhe e direciona.

Foi a capoeira que abriu seu caminho para o reconhecimento e a noção de identidade. Desde criança, observava adultos se movimentando, tentando imitar sem entender como aqueles giros e quedas eram possíveis. Tentava, errava, insistia, até que o corpo começou a compreender o ritmo da roda.
A capoeira foi o começo, mas o que fez permanecer foi o breaking. “Quando eu conheci o hip-hop, tudo mudou”. Ele assistia vídeos de dançarinos profissionais competindo na Red Bull BC One, a competição mais prestigiada do mundo de Breaking e ficava encantado. Começou a treinar sozinho, criar coreografias, se apresentar em colégios, festivais de Natal e eventos comunitários.
“Quando você vê, vai passando os anos. Aí você vai adquirindo conhecimento, já começa a pegar campeonatos e quando vê, pode ensinar uma criança. Para mim, isso é a melhor coisa que existe”, ressaltou.
Hoje, ele consegue viver da dança: se apresenta em escolas, faz números de Natal, se desloca para competições e recebe por isso. “Foi difícil chegar até aqui, uma caminhada de 15 anos”.
Ao longo dessa trajetória, Roberty também acompanhou a transformação da maneira como a sociedade enxerga o hip-hop e a cultura negra. Ele lembra do peso dos rótulos. “Quem dançava hip-hop era marginal, era drogado, era isso, era aquilo.”
Esse estigma, historicamente direcionado aos jovens negros, ainda ecoa. Contudo, ele viu a maré virar, aos poucos, como quase tudo que é construído a partir das periferias. “Hoje o hip-hop e o break são esportes olímpicos. Tem competição, tem reconhecimento. As pessoas querem colocar as crianças para aprender”, destacou.
A mudança, porém, não neutraliza a raiz do movimento. Roberty sabe que dança dentro de uma cultura nascida como resposta à violência, à desigualdade, ao abandono do Estado. Mesmo sendo branco, ele entende que o que faz dialoga com uma luta que o antecede.
“O hip-hop acolhe e também cura, tira crianças e adolescentes que podem estar em envolvimento com drogas e álcool e, através da capoeira e das danças, essas pessoas podem ter acolhimento e conseguir viver através do que gostam”, observou.
A arte, para ele, é arma silenciosa, uma forma de resistência que fortalece ao mesmo tempo em que abraça. “Crianças que dançam melhoram sua autoestima, a oratória. Mas além disso, o break é uma inspiração. A gente conta a história da gente só dançando, sem falar uma palavra, e isso é muito bonito de ver”, explicou.
Em cidades pequenas, diz ele, esse brilho ainda é raro. Mas não deveria ser. O que ele sonha é simples: salas abertas, música tocando, crianças girando no chão, não para quebrar regras, mas para construir futuros. Porque, para Roberty, resistência também é isso: criar a possibilidade de um novo caminho para alguém que talvez não tivesse nenhum.
No fim, o que sustenta cada trajetória não é apenas o talento ou a disciplina, mas a força silenciosa que nasce quando alguém encontra espaço para ser visto. Arte e a educação seguem cumprindo seu papel mais profundo: o de lembrar que crescer, sonhar e resistir ainda é possível, sobretudo quando se caminha junto.
Para além das histórias individuais, a reportagem evidencia que o racismo não é um problema abstrato nem distante, ele se manifesta no cotidiano, nas desigualdades de acesso, na violência simbólica e material que ainda marca a vida da população negra. Enfrentá-lo exige mais do que discursos: requer participação social, políticas públicas efetivas e o fortalecimento de iniciativas coletivas.
Casos de racismo podem e devem ser denunciados pelo Disque 100, canal nacional de Direitos Humanos que recebe relatos de forma gratuita e sigilosa.
Em Guarapuava, vítimas e testemunhas podem ainda buscar orientação e apoio junto ao Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (COMPIRG), localizado na Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Rua Guaíra, 3075, Centro) que acompanha denúncias e encaminha os casos aos órgãos competentes.
O IPONG segue aberto à comunidade, recebendo sugestões de pautas, propostas de eventos e ações por meio do e-mail (ipongguarapuava@gmail.com) e das redes sociais. Denunciar, participar e ocupar esses espaços é romper o silêncio, reforçar o pertencimento e transformar a resistência em política pública.





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