Na primeira sexta-feira de dezembro de 2025, um grupo de consultores de vacinas dos Estados Unidos descartou uma recomendação histórica: a orientação para que todas as crianças norte-americanas recebessem a vacina contra hepatite B logo após o nascimento. A decisão reacendeu o debate internacional sobre hesitação vacinal e políticas de imunização. Essa temática o Brasil conhece profundamente, após enfrentar sua maior crise de cobertura vacinal em décadas.

A vacinação é amplamente reconhecida como uma das maiores conquistas da medicina moderna. Programas de imunização em massa foram responsáveis, ao longo do século XX, pela erradicação e controle de doenças infectocontagiosas que dizimaram populações inteiras.

 No entanto, nos últimos anos, o avanço da desinformação, mudanças sociais e fatores estruturais fragilizaram esse escudo coletivo, resultando na queda das coberturas vacinais e no retorno de enfermidades que haviam sido controladas.

A especialista em enfermagem e epidemiologia Marlene Borecki avalia que a política estadunidense reflete uma tendência global preocupante.  “Recentemente vimos uma tendência mundial de relutância à vacinação. Isso representa um atraso enorme diante do risco de reintrodução de doenças, que só estão controladas graças à imunização”, afirmou.

Para ela, o efeito desse movimento é imediato e capaz de trazer consequências muito graves para a saúde do mundo inteiro. “Essas ideias negacionistas repercutem com força, sobretudo quando surgem vacinas novas, como a da Covid, que hoje enfrentamos dificuldade para aplicar até em crianças menores de cinco anos. Muitas vezes precisamos acionar o Conselho Tutelar e a Justiça para garantir o direito à vacina”, explicou. 

No Brasil, o Programa Nacional de Imunizações (PNI), considerado um dos mais completos do mundo e responsável pela eliminação de doenças como varíola e poliomielite, enfrentou entre 2016 e 2022 seu período mais crítico. Foram anos marcados por estagnação, descrédito, falhas de comunicação pública e adversidades logísticas. Ainda assim, em 2025, o país registra sinais robustos de recuperação, um movimento que especialistas têm chamado de “reconquista da imunização”.

Dez anos de crise

Para compreender o cenário atual, é necessário recuperar a série histórica. Até 2015, o Brasil alcançava coberturas vacinais superiores a 90% ou 95% em praticamente todos os imunizantes infantis recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Esse padrão começou a se deteriorar a partir de 2016, quando todas as vacinas do calendário, sem exceção, passaram a registrar queda contínua, segundo dados do Instituto Butantan.

Entre 2016 e 2019, o país saiu de patamares seguros e entrou na chamada “zona de risco”, com coberturas entre 80% e 85%. O impacto foi dramático: em 2019, o Brasil perdeu o certificado de eliminação do sarampo, apenas três anos após ter sido declarado livre da doença. 

O vírus voltou a circular de forma autóctone por mais de 12 meses, provocando surtos, internações e pressão sobre o sistema de saúde, antes mesmo da chegada da Covid-19.

O início da pandemia, em 2020, agravou um problema que já vinha se consolidando. Com o distanciamento social, salas de vacina foram fechadas ou tiveram os horários reduzidos, profissionais foram deslocados para a linha de frente e pais deixaram de levar crianças às unidades por medo de contaminação.

O impacto foi imediato. A cobertura da BCG, aplicada ao nascer, despencou de 99,7% em 2018 para 74% em 2020, um indicador crítico, já que a BCG funciona como termômetro de acesso ao sistema de saúde nos primeiros dias de vida.

Além disso, a pandemia inaugurou a era da infodemia: a circulação massiva de boatos, fake news e narrativas politizadas contra as vacinas. A desconfiança inicialmente direcionada aos imunizantes contra Covid-19 contaminou o restante do calendário, afetando até vacinas tradicionais, como a tríplice viral e a poliomielite.

Como consequência, milhões de crianças ficaram com esquemas vacinais incompletos. A OPAS elevou o risco de reintrodução da poliomielite no Brasil à categoria de “alto risco”, devido às baixas coberturas da VOP e da VIP.

O fundo do poço foi registrado entre 2020 e 2022. A partir de 2023, porém, os índices começaram a melhorar: 13 dos 16 imunizantes infantis apresentaram crescimento em relação ao ano anterior, segundo o Ministério da Saúde.

2025: o ano da virada

O ano de 2025 consolidou a retomada. Impulsionado pelo Movimento Nacional pela Vacinação e pela adoção da estratégia de microplanejamento, abordagem que identifica fragilidades e soluções em nível local, o Brasil alcançou resultados significativos.

Das 16 vacinas do calendário infantil, 15 apresentaram aumento de cobertura em 2025 na comparação com o mesmo período de 2024.

A Campanha de Multivacinação, realizada entre outubro e novembro de 2025, também foi decisiva. Mais de 7 milhões de doses foram aplicadas em crianças e adolescentes. A articulação com o programa Saúde na Escola teve papel fundamental: escolas de 74% dos municípios brasileiros receberam equipes de vacinação, aplicando mais de 1 milhão de doses diretamente nas instituições.

Vacinas com baixa procura: Influenza e Dengue ainda preocupam

Apesar dos avanços no calendário infantil, vacinas destinadas a adolescentes e adultos, especialmente Influenza e Dengue, continuam abaixo das metas.

Influenza

Mesmo com vacinas trivalentes atualizadas para H1N1, H3N2 e B/Victoria, a adesão permaneceu baixa.

  • Cobertura nacional: 41% a 48%
  • Meta: 90%
  • Impacto: 77% das internações graves por Influenza em 2025 ocorreram em não vacinados
  • Desempenho regional: Nordeste e Sul tiveram índices um pouco maiores; Rio de Janeiro e estados do Norte registraram as menores coberturas

Dengue

Após a epidemia histórica de 2024, 2025 registrou forte queda nos casos, mas a adesão à vacina Qdenga permaneceu baixa:

  • Cobertura vacinal: apenas 37% do público-alvo (10 a 14 anos)
  • Redução epidemiológica:
  • 75% menos casos
  •  72% menos mortes

Em novembro de 2025, a Anvisa aprovou a nova vacina do Butantan (Butantan-DV), 100% nacional e de dose única, prevista para ser incorporada ao SUS em 2026, medida que pode transformar a logística de imunização.

Covid-19: foco em grupos de risco e vacinas atualizadas

Em 2025, o Brasil consolidou uma mudança estratégica: a vacinação contra Covid-19 passou a ser direcionada a grupos de risco: idosos, imunossuprimidos e crianças menores de cinco anos. As vacinas utilizadas (Comirnaty, da Pfizer, e Spikevax, da Moderna) foram atualizadas para a variante XBB 1.5.

No fim do ano, autoridades sanitárias iniciaram a transição para imunizantes compatíveis com a variante JN.1, que devem ser utilizados na campanha de 2026.

Fonte: Agência Pará

Desafios persistentes: adultos resistentes e barreiras sociais

 Embora a vacinação infantil esteja em recuperação, a imunização adulta segue estagnada. Especialistas apontam que a hesitação é mais alta em grupos que não possuem rotina vacinal estabelecida, como adultos jovens.

Outro fator estrutural segue impactando diretamente os índices: a violência urbana. Um estudo do UNICEF em parceria com as Redes da Maré, divulgado em outubro de 2025, revelou que a vacinação infantil cai 90% em dias de operações policiais em comunidades vulneráveis, comprometendo esquemas vacinais inteiros.

Além das questões sociais, problemas de infraestrutura e condições de trabalho também continuam pesando. A especialista em enfermagem do trabalho e epidemiologia, Marlene Borecki, explica que a sobrecarga e a falta de profissionais têm resultado no fechamento temporário de salas de vacina: 

 “Quando falta um profissional de enfermagem,  seja por férias, atestado ou capacitação, a primeira coisa que precisa fechar é a sala de vacina. Isso tem acontecido com frequência este ano. Ainda enfrentamos carência de pessoal e nem todos os profissionais se sentem seguros para atuar de imediato com imunização, que exige muita atenção e responsabilidade”, afirmou.

Perspectivas

O Brasil vive, em 2025, seu momento mais promissor em uma década de desafios na saúde pública. A retomada da cobertura vacinal infantil mostra que políticas integradas, comunicação eficaz e foco territorial podem reverter cenários críticos. No entanto, especialistas alertam que a recuperação ainda é desigual e depende de esforço contínuo, principalmente na vacinação de adolescentes e adultos.

Enquanto novas tecnologias, como a vacina nacional contra a dengue, despontam no horizonte, o país encara o desafio permanente de equilibrar ciência, comunicação e acesso. A reconquista da imunização segue em curso, mas ainda exige atenção, vigilância e diálogo com a população.

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