O turismo é reconhecido pela Organização Mundial do Turismo (OMT) como um direito universal, parte da experiência humana que deve estar acessível a todos, independentemente de limitações físicas. No entanto, a distância entre o discurso da inclusão e a prática do turismo acessível se torna evidente na falta de manutenção e de políticas contínuas. 

O despreparo de cidades e parques no setor turístico dificulta o acesso igualitário, já que muitas estruturas não se adaptam às necessidades de pessoas com deficiência física ou visual. Nesse contexto, promover a acessibilidade garante que qualquer visitante possa vivenciar o turismo de forma segura e autônoma. 

A principal lei de acessibilidade para deficientes no Brasil é a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI), Lei nº 13.146/2015, também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência. Ela estabelece direitos, deveres e normas para garantir a plena participação da pessoa com deficiência em diversas áreas, como acesso a edificações, transporte, comunicação e lazer, reforçando um modelo social da deficiência em que a sociedade se adapta para incluí-la.

O cartão-postal de Guarapuava não é acessível a todos

O som das águas e o vento frio trazem o cheiro da mata e o barulho constante do Salto São Francisco: uma das maiores cachoeiras do sul do Brasil, com quase 200 metros de queda. Para muitos visitantes, é um espetáculo da natureza, mas para outros, o percurso até ali se transforma em obstáculo: trilhas íngremes, degraus de pedra, ausência de corrimãos, rampas e sinalização tátil.

A única maneira de levar cadeirantes pela trilha é estando sobre as costas de algum responsável, um monitor ou até mesmo o guia turístico. O revezamento e as paradas para descanso são essenciais, tanto para os monitores quanto para o cadeirante. É indicada a construção de uma estrutura mais segura e totalmente nivelada.

“Chegar perto do mirante é quase impossível para quem tem alguma limitação física”, conta Gabriel, de 16 anos, cadeirante que visitou o parque. 

A experiência do adolescente resume o dilema central de outros tantos visitantes do Parque São Francisco: como o turismo de natureza, tão celebrado como experiência universal, ainda exclui parte dos brasileiros?

O Salto São Francisco, localizado no Parque Natural Municipal São Francisco da Esperança, entre Turvo, Prudentópolis e Guarapuava, conta com acessos e espaços amplos para circulação. Entretanto, por mais que hoje o parque esteja sob responsabilidade do Estado, a área referente a Guarapuava carece de sanitários exclusivos, rampas adequadas, vagas reservadas e corrimãos, além de apresentar falhas significativas na sinalização voltada a pessoas com deficiência. A ausência desses elementos torna inviável a locomoção independente, exigindo acompanhamento constante ou apoio de um guia. 

E a realidade não é apenas dos turistas com deficiência na região centro-sul do Paraná. A acessibilidade em parques turísticos ainda é pouco abordada, apesar da importância dos espaços públicos oferecerem estruturas adequadas para todas as categorias de deficiência.

Empecilhos técnicos e ambientais

Segundo o arquiteto Ederson Carlos Bruschi, os desafios nesses ambientes naturais são ainda maiores dos que os vistos nas áreas urbanizadas. “Lidar com o relevo irregular dificulta a criação de trilhas acessíveis e seguras, e ao mesmo tempo, é preciso respeitar as restrições ambientais, que limitam construções e interferências no ecossistema. Além disso, implementar acessibilidade costuma ter custos mais altos, exige soluções específicas que não prejudiquem a fauna e a flora, e requer manutenção constante devido às condições naturais”, afirma.

O arquiteto ainda explica que erros como esses são comuns em ambientes naturais. “Erros comuns incluem tentar ‘forçar’ acessibilidade sem analisar o ambiente, criando caminhos que não funcionam na prática, usar estruturas improvisadas que não resistem ao clima, ignorar a sinalização inclusiva e deixar trechos importantes desconectados. A solução é planejar desde o início com especialistas, mapear o relevo e limites ambientais, definir rotas realmente viáveis e usar materiais adequados”, diz Ederson.

Ainda existem lacunas nas normas quando se trata de ambientes naturais. “As normas brasileiras, especialmente a NBR 9050, ajudam muito, mas não são totalmente suficientes para ambientes naturais porque foram pensadas principalmente para áreas urbanas e construídas. Em parques e unidades de conservação, surgem situações específicas que a norma não detalha, e muitos projetos precisam complementar a legislação com estudos ambientais e diretrizes internacionais”, conclui Ederson.

Do ponto de vista administrativo, a gestão das unidades de conservação também impacta as intervenções. Segundo Rodrigo Hohl Mendes, guia turístico da Secretaria de Turismo de Guarapuava, as decisões dependem de articulações institucionais. “As unidades de conservação hoje têm a gestão com o IAT, então a gente depende dessa parceria com o município e com o governo do estado. Precisamos fazer pedidos formais para melhorias. Hoje, por exemplo, a unidade de conservação que temos guarda compartilhada é justamente o Salto São Francisco”, explica.

Relatos e experiências

A falta de acessibilidade se reflete diretamente na experiência dos visitantes. O guarapuavano Marcos Anselmo é pai de Gabriel, cadeirante de 16 anos que ama explorar pontos turísticos do município. Durante a visita ao Salto São Francisco, a família enfrentou diversos obstáculos.

Gabriel participa de corridas de rua utilizando um triciclo, e por isso a família está acostumada a carregá-lo em situações que exigem deslocamento mais difícil. Ainda assim, isso não elimina a necessidade de se pensar nas outras pessoas. “Eu e minha esposa já fizemos trilha com ele nas costas, mas é extremamente cansativo. Precisamos pensar na inclusão de todos, garantir que essa possibilidade exista para todas as pessoas”, afirma o pai.

“É fundamental que todo visitante seja acolhido, tenha um atendimento adequado e possa acessar plenamente qualquer destino que desejar”, conclui Marcos Anselmo.

Em muitos trechos da trilha, a única maneira de permitir o avanço de cadeirantes é carregá-los nas costas por responsáveis, monitores ou guias turísticos. O revezamento e as paradas para descanso tornam-se essenciais, tanto para quem auxilia quanto para o cadeirante.

Foto: Estruturas das escadas por uma visão de cima da área

A acessibilidade representa, assim, um processo contínuo de transformação e adaptação do ambiente, permitindo inclusão social, acolhimento e autonomia. A falta de adaptações impede que muitas pessoas frequentem certos espaços, o que reforça a urgência de melhorias estruturais e de maior sinalização nas trilhas e áreas de circulação.

Foto: Entrada da trilha

Na entrada da trilha, é possível observar que o caminho possui espaço amplo com poucos desníveis, permitindo que visitantes com algum grau de deficiência se sintam confortáveis. Com melhorias estruturais, esse espaço poderia receber ainda mais pessoas com deficiência, contribuindo para sua inclusão em atividades de lazer e turismo.

Foto: Ponte de madeira

Durante o percurso, identificou-se uma ponte de madeira de passagem ampla, mas sem placas ou sinalizações que oferecessem maior segurança. A superfície irregular pode dificultar a circulação de pessoas com deficiência visual ou cadeirantes, embora, com acompanhamento, ainda seja possível transitar pelo local. A ausência de informações em braile e de sinalizações adequadas nas placas do parque compromete a autonomia dos visitantes. Em alguns trechos, como escadas de madeira íngremes sem corrimão, o acesso de cadeirantes ou pessoas com baixa visão torna-se inviável. 

Foto:  Degraus que complementam escadas fixas de madeira íngremes

Outro ponto observado foram estruturas que poderiam ser substituídas por rampas niveladas, aproveitando a própria inclinação natural do terreno, o que facilitaria o deslocamento de cadeirantes. As barreiras arquitetônicas, como degraus irregulares e falta de sinalização tátil ou visual, dificultam não apenas o acesso, mas também a segurança dos visitantes. Em alguns trechos, o caminho até a ponte apresenta inclinação acentuada, exigindo esforço extra para empinar cadeiras de rodas, o que pode causar acidentes. Em outros pontos, a única alternativa para que cadeirantes avancem pela trilha é ser carregado por responsáveis ou guias. 

Para além da estrutura

Mais do que acessibilidade física, o turismo inclusivo é sobre pertencimento. É sobre poder sentir-se parte do mundo natural, e não apenas observador A transformação passa por políticas públicas, sim, mas também por mudança de mentalidade — de gestores, turistas e da própria sociedade.

De acordo com Rodrigo, embora o município reconheça essas dificuldades, há projetos em negociação para melhorias estruturais. “Está previsto para ser feita uma reforma no Salto São Francisco para melhorar essa questão da acessibilidade. Existe um projeto para ampliar o centro de convivência e resolver esses problemas de acessibilidade, porque não só a trilha que vai para o mirante tem esse problema — os banheiros também não são adaptados”, conta.  

Apesar das dificuldades, há trechos que oferecem acesso facilitado, como partes da trilha com corrimãos em ambos os lados e passagens amplas. Esses espaços permitem mobilidade mais segura, embora ainda não atendam às necessidades de pessoas com deficiência visual devido à falta de sinalização tátil. A presença de folhas e pedras no caminho também dificulta a circulação de cadeirantes, mas, com manutenção adequada, o trajeto pode se tornar mais acessível.

A partir dessas observações, percebe-se que, embora o parque ofereça algumas estruturas que contribuem para a segurança dos visitantes, ainda existe grande falta de acessibilidade real, especialmente para deficientes visuais e cadeirantes. Em áreas com escadas ou trechos irregulares, como na imagem abaixo, a ausência de sinalização adequada e corrimãos compromete a mobilidade e impede que o visitante percorra o trajeto sozinho. Desníveis do solo e irregularidades na trilha tornam a experiência ainda mais desafiadora.

Foto: Degraus de madeira

Mesmo assim, algumas áreas apresentaram condições melhores, como corredores com corrimãos fixos, facilitando a locomoção de visitantes que necessitam de apoio. Nessas áreas, é possível realizar caminhadas e outras atividades físicas com relativa segurança, beneficiando diferentes perfis de visitantes. As fotografias registradas reforçam a necessidade de melhorias nas estruturas arquitetônicas externas do parque para ampliar a acessibilidade de pessoas com deficiência física e visual.

Durante o percurso, uma ponte de madeira, sofrendo irregularidades e desnivelamentos, fazendo com que se torne difícil o acesso a outra extremidade. O caminho de acesso à ponte até as escadas adiante com uma considerável inclinação, onde seria necessário empinar a cadeira de rodas em duas rodas, ainda que tal locomoção seja de nenhuma segurança, podendo causar algum acidente. A descida da trilha até a ponte de acesso favoreceu o caminho da atividade, no entanto, a ponte permite a passagem de cadeira de rodas, mesmo com algumas dificuldades aparentes ainda é de fácil acesso ao outro lado. A única maneira de levar cadeirantes pela trilha é estando sobre as costas de algum responsável, um monitor ou até mesmo o guia turístico. O revezamento e as paradas para descanso são essenciais, tanto para os monitores quanto para o cadeirante. É indicada a construção de uma estrutura mais segura e totalmente nivelada.

Soluções

Segundo Rodrigo, a acessibilidade deve ser prioridade em locais de grande visitação. “Por ser um ícone aqui na região como ponto turístico, muito procurado na tríplice divisa Guarapuava, Turvo e Prudentópolis, a gente tem um fluxo muito grande de turistas. É importante que essas áreas estejam adaptadas para pessoas com dificuldades de locomoção, não só cadeirantes, mas também idosos”, afirma o guia turístico. 

Ele afirma que há projetos em negociação para melhorias estruturais. “Teve uma tratativa com o Governo do Estado para ser feita uma guarda compartilhada com a prefeitura de Guarapuava. Está previsto para ser feita uma reforma no Salto São Francisco para melhorar essa questão da acessibilidade. Existe um projeto para ampliar o centro de convivência e resolver esses problemas, porque não só a trilha que vai para o mirante tem esse problema — os banheiros também não são adaptados”, finaliza Rodrigo.

Do ponto de vista técnico, Ederson Carlos Bruschi destaca que o equilíbrio entre acessibilidade e preservação ambiental é possível. “É possível encontrar equilíbrio adotando soluções que causem o menor impacto possível, como usar materiais sustentáveis, construir estruturas elevadas que não toquem diretamente o solo, adaptar apenas trechos essenciais e seguir estudos ambientais que indiquem onde é seguro intervir”, conclui. 










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