Guarapuava é a quinta cidade do Paraná com maior quantidade de alertas de desmatamento em todo o estado. Em 2025, o município registrou seis novas áreas de alerta, que foram somadas aos 818,6 hectares de terras desmatadas no município. Os dados são da Map Biomas, plataforma que identifica, por imagens de satélite de alta resolução, possíveis locais de perda de vegetação nativa.
Ao todo, a cidade localizada no Terceiro Planalto, acumula 116 alertas. É como se 1.146,5 campos de futebol tivessem sido destruídos. Em média, 3 mil metros de terras são desmatadas todos os dias na cidade.

Além de Guarapuava, outras quatro cidades da região centro-sul do estado estão elencadas entre os 10 municípios paranaenses com mais pontos críticos. As cinco cidades que figuram entre as dez que mais desmatam são:
1º Nova Laranjeiras
2º Prudentópolis
3º Pinhão
5º Guarapuava
8º Reserva do Iguaçu.
De acordo com Marco Antonio Silva, chefe do escritório regional do Instituto Água e Terra (IAT) de Guarapuava, a região se destaca negativamente quando comparada às outras, justamente pela extensão territorial de mata nativa. O que ele quer dizer é que, proporcionalmente, há mais pontos de devastação que em outros locais porque a região concentra, também, a maior parte de vegetação a ser preservada.


Desmatamento por localidade
Os alertas guarapuavanos deste ano se concentram em alguns pontos: duas das notificações são na Serra da Esperança, três no Guairacá e uma no Atalaia. O Guairacá, distrito do município, concentrou o ponto de desmatamento recorde no ano, com a ocorrência que registra 10,89 hectares desmatados em uma única área.
Além disso, a Serra da Esperança e Guairacá apresentam um déficit na regularização fundiária, que é o processo que organiza juridicamente áreas ocupadas de forma informal e nomeia os proprietários de cada local. E, enquanto isso não ocorre, a identificação dos criminosos responsáveis pelo desmate de áreas fica comprometida.

“O alerta é a nossa bússola”
O geógrafo Bruno Toledo integra o Núcleo de Inteligência Geográfica da Informação do IAT, um setor especializado em verificação de áreas com possíveis danos. Ele e a equipe organizam os alertas emitidos por outros órgãos, como o Map Biomas, e iniciam o processo de checagem para saber se um alerta é real ou não.
Esse erro pode ocorrer porque o site atua comparando imagens de satélite anteriores com registros atuais. E, às vezes, os sistemas identificam problemas que não são reais ou deixam passar situações problemáticas.
Por isso, é necessário que a identificação passe por uma verificação prática, isto é, no local suspeito. Nessa etapa, uma equipe do IAT é encaminhada ao local para verificar se o dano é real e, se sim, qual a dimensão dele. “O alerta é a nossa bússola. Ele é o nosso guia mas não é nossa finalidade”, aponta o geólogo.
Bruno conta também que na maior parte das vezes o dano ambiental costuma ser maior que o emitido pelo alerta. “Acabamos sempre achando mais coisa”.
Justamente por conta dessas falhas de identificação e na confusão de alguns dados, a partir do ano que vem, o Map Biomas não será mais utilizado pelo IAT para identificação de alertas de desmatamento. O novo sistema será do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
O que diz a lei?
Quando a lei é cumprida, os criminosos não somente são multados, mas também ficam responsáveis pelo replantio de mudas correspondentes àquelas que foram mortas um dia.
“Uma vez identificado o dano e comprovando que o estágio de degradação da vegetação é avançado, é determinada a recuperação da área no mesmo local”, aponta Marco, chefe do IAT.
Além disso, caso esse processo de reflorestamento não esteja sendo cumprido de forma correta, a multa é reaplicada e em um valor dobrado com relação ao inicial. A fiscalização desse processo é responsabilidade de múltiplos órgãos: Polícia Civil, Ministério Público e IAT.
As autoridades devem monitorar a área e garantir que a mata seja devolvida como foi encontrada um dia.

Quem desmata em Guarapuava?
É difícil apresentar um perfil daqueles que desmatam em Guarapuava. Isso porque a realidade de cada área é única. Mas, no geral, há um consenso: o desmate da maior parte das áreas ocorre para expansão do plantio ou pecuária. E esse padrão se repete, em diferentes proporções, para pequenos ou grandes produtores.
Soja, milho, feijão, fumo, entre outros grãos, são culturas frequentes nesse contexto. “A maioria das vezes o desmatamento é para transformar a área em plantação ou pasto. E a pressão acaba sendo em cima das nossas florestas nativas, como a mata da Araucária, uma demanda bem antiga por terras que só aumentou com o passar do tempo”, afirma o geógrafo Elizandro Aquino.
“Sobre o perfil, tem de tudo, né? O grande fazendeiro, o investidor, o que quer lucrar rápido com commodities… E tem também o produtor menor, que às vezes desmata um pedacinho por falta de conhecimento, com a necessidade de crescer a produção. O que importa é o uso final, que é quase sempre o agropecuário”
Elizandro Aquino, geógrafo.
Sobre a consciência no cometimento de crimes, Bruno, do IAT, fala que metade sabe que o que faz é ilegal e metade não. “É 50/50 eu acredito. Tem uns que se fingem de desentendidos, tem uns que têm ciência e fazem mesmo assim”, afirma o geólogo.
Ainda, grande parte do descumprimento da lei consciente ocorre porque muitos desacreditam que um dia a fiscalização identifique o crime. “Eles vão para uma área bem remota e acham que ninguém vai ver, mas a gente detecta”. E essa detecção só ocorre por meio da tecnologia avançada que permite o fornecimento de informações atualizadas de todas as áreas via satélite.
Com relação a reincidência, Bruno aponta que alguns criminosos contam com a burocracia no cumprimento da lei brasileira para dar sequência ao desmate. “Tem certos infratores que ficam recorrendo às instâncias administrativas e, enquanto o processo corre, eles fazem novos danos ambientais”.
O combate ao desmatamento
Para contornar esse cenário, alguns pilares precisam ser fortalecidos: fiscalização, educação e punição. É necessário que os órgãos de fiscalização intensifiquem seus trabalhos para que tudo seja identificado. Depois, é necessário que doa no bolso de quem desmata: multas severas precisam ser aplicadas para os crimes identificados.
Ainda, a educação ambiental também precisa ser latente. Junior Vieira, geógrafo, afirma que iniciativas que incentivam a preservação são urgentes. Para ele, a definição dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), pela Organização das Nações Unidas (ONU), é um exemplo de ação afirmativa contundente e que trabalha pela educação ambiental.
Elizandro ainda ressalta um outro fator: o incentivo a quem faz certo. “É necessário ajudar o produtor que não desmata, dar crédito, dar um incentivo para que ele cuide da floresta. É preciso que o produtor veja que vale a pena financeiramente deixar a mata em pé”.
“O desmatamento da região de Guarapuava envolve escolhas. Muitas vezes começa pequeno, como o caso de um produtor que só abre um pedacinho de mata para ampliar uma pastagem. Algo que parece talvez até inofensivo, mas quando os comportamentos repetem dezenas ou centenas de propriedades, o impacto vira enorme. Os dados mostram que o desenvolvimento e preservação precisam andar juntos. Se cada um fizesse a sua parte, produtores, órgãos públicos e a sociedade mesmo, a gente vai conseguir crescer sem destruir e garantir o futuro das matas.”






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