“Nós somos uma pequena livraria. E é assim que a gente quer ser”, afirma Enilda Pacheco, uma das proprietárias da Gato Preto – Discos & Livros. O estabelecimento guarapuavano representa quase uma raridade em 2025: uma livraria física regional.
Atualmente, além das dificuldades cotidianas do mercado, a livraria precisa enfrentar a competição intensa da internet e marketplaces como a Amazon, que conseguem oferecer preços mais baixos em livros diversos. “Eles compram milhares de exemplares. Eu compro um, dois no máximo. Então, é impossível. Ninguém consegue concorrer com eles”, explica Enilda.
Diante disso, a Gato Preto, assim como outras pequenas livrarias espalhadas pelo mundo, investe em estratégias para se diferenciar e oferecer uma experiência única aos seus clientes, criando uma relação de confiança que o universo das compras online não consegue oferecer. Enilda conhece seus clientes, suas preferências, famílias e amigos. Atende pedidos de livros específicos, conversa e troca indicações entre uma venda e outra.
“Conhecemos bem nossos leitores, sabe? Existe essa relação muito próxima. É um tipo de acolhimento diferente. Para você ter uma ideia, temos clientes que vêm aqui todos os dias: sentam, tomam um chá, abrem um livro, conversam, leem um pouco, vão embora e nem sempre compram, às vezes porque não têm dinheiro na hora”, comenta.
Diversidade de acervo e curadoria rigorosa sustentam a proposta da livraria
Outro diferencial da Gato Preto é a diversidade de seus produtos. As prateleiras contam com literatura nacional mas também japonesa, chinesa, europeia, coreana, indígena, africana, tanto em português quanto nas línguas de origem.
Ao contrário das grandes livrarias, são feitas encomendas de poucos títulos selecionados com cuidado pensando no perfil dos clientes. “Para pedir o livro para o distribuidor ou para a editora, a gente estuda, a gente vê o que é interessante, o que o nosso leitor vai realmente querer”, completa Enilda.

A curadoria cuidadosa e a personalização não impedem que a livraria enfrente o principal obstáculo do mercado literário: competir com os valores mais baixos da internet, onde se emprega uma estratégia de preços agressivos, com volume de vendas que permite uma margem de lucro menor por transação.
“O livro é um produto caro. Deveria ser bem mais barato, mas não é, porque a cadeia toda é muito cara”, desabafa Enilda, que conta com 17 anos de experiência no mercado editorial.

A livraria como ponto de encontro cultural e refúgio para quem valoriza o livro
O pequeno espaço da livraria se torna, ainda, um abrigo para a cultura guarapuavana. Ali acontecem clubes do livro e feiras promocionais que unem artesãos e músicos, além de representar um local para escritores locais realizarem seus lançamentos e primeiras vendas.
“Em Guarapuava, precisamos criar oportunidades para o consumo da cultura, porque não é a mesma lógica das grandes cidades. O público daqui é diferente do público de São Paulo, por exemplo, e precisamos entender isso para podermos realmente desenvolver o consumo cultural”, conta Enilda.

Para ela, o público que a Gato Preto acolhe é formado por leitores curiosos, que valorizam o livro enquanto objeto e enxergam a compra em uma livraria física como uma experiência: “O Caetano Veloso tem uma canção que diz que o livro é um objeto de amor tátil. E é mesmo, né? A gente precisa pegar, cheirar e abrir. Quem procura livraria física é só quem é, de fato, leitor”.
“Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)”
Trecho da música “Livros” (1997), de Caetano Veloso.






Deixe uma resposta