No verso de papéis que restaram da pastoral carcerária ou de convocatórias para audiências prisionais, os detentos da Cadeia Pública de Guarapuava compuseram a exposição de desenhos “Liberdade através da Arte”. A mostra retratou sonhos, medos, gostos, rotinas daqueles que, mesmo presos, encontraram na arte uma possibilidade de emancipação.
Um dos desenhos é de uma mão biônica rica em articulações precisas. Outro mostra um castelo de tijolos à vista, com detalhes de luz e sombra. Outro, ainda, é a planta da cela que o artista vive, exibindo os beliches e o buraco utilizado como vaso sanitário pelos moradores.

Os desenhos foram expostos na quarta-feira (19) ao lado da cantina do Centro Universitário Campo Real. A exposição ocorreu por iniciativa da Laura Rucker, que é estudante de Psicologia e realizou o estágio na cadeia. Ela identificou os artistas durante um grupo terapêutico para pessoas que têm problemas com álcool e outras drogas.
Laura conta que muitos pediam para ela encaminhar, junto a cartas, desenhos aos familiares. E foi ali que a ideia de unir arte à psicologia nasceu. ”E conforme eles foram fazendo esses desenhos, eu vi que tinha muita gente muito talentosa lá dentro. E eu comecei a pensar nessa ideia de fazer uma exposição”.

Além disso, Laura também queria cooperar para a desestigmatização da pessoa presa. O objetivo da estudante era que seus pacientes deixassem de ser vistos como marginais e viciados e ganhassem uma nova camada, a de artistas.
“Me marcou muito porque tem desenhos que foram produzidos ali em documentos do processo. Então, provavelmente aquela pessoa recebeu a intimação e transformou aquilo em arte. E até com a forma de ressignificar, né? Ressignificar, eu estou aqui, tô recebendo uma intimação, mas eu tenho visão, eu sou uma pessoa, eu tenho sonhos”, aponta a professora e supervisora de estágio, Elenita Luiza Lodi.

E, quem prestigiou a exposição saiu tocado com a iniciativa. Jaqueline Rodrigues, estudante de Serviço Social da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), afirma que a exposição ocorre dentro de um espaço acadêmico é um marco importante. “As pessoas estão vendo, tirando foto, lendo e sabendo que foram obras feitas por pessoas que não podem estar aqui vendo a própria arte”

Laura gostaria que mais pessoas fossem tocadas pela exposição assim como Jaqueline foi. Por isso, o objetivo dela é propor que a iniciativa se torne um projeto de extensão dentro da Campo Real, para que as obras sejam expostas em outros espaços públicos, como a Câmara de Vereadores e a Prefeitura.






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