Para mim, a parte mais importante e também a mais desafiadora dentro do jornalismo é conseguir tocar as pessoas com as minhas palavras. Muitas vezes apenas lidar com o público já é um desafio. Sair da mera superfície e atingir uma camada mais profunda de quem lê não é fácil. No entanto, alguns indivíduos, sendo ou não da área da comunicação, parecem ter naturalmente esse dom de ir além e tocar almas. Merydiane é uma delas.

Antes de conhecê-la, nas mensagens trocadas, ela já demonstrava ser alguém muito simpática e prestativa. Quando entrei no centro acadêmico de Serviço Social da Unicentro, o primeiro vislumbre que tive foi de Mery sorrindo ao lado do namorado, enquanto manuseava alguns de seus trabalhos que combinamos que ela levaria. Três deles tinham temática natalina; o quarto exibia a frase “Lar doce lar” junto de uma casinha rodeada por flores. E foi por esse último que a nossa conversa começou. 

Artes feitas por Merydiane. Fonte: Ana Flávia Oliveira 

Merydiane da Luz Pinheiro, 24 anos, é artesã. Ela aprendeu a bordar com a mãe por volta 9 anos e, apesar da facilidade com a prática, acabou deixando o hábito de lado por alguns anos. “A minha mãe sabe costurar, sabe bordar. Ela tem 67 anos agora e naquela época uma mulher tinha que fazer todas essas coisas. Então, ela sabe fazer um pouquinho de muita coisa e me ensinou”, contou. 

Durante a pandemia de Covid-19, quando não podia sair de casa nem pra trabalhar, Merydiane relembrou o antigo passatempo e pesquisou mais sobre o assunto. Cinco meses depois, o bordado se tornou uma fonte de renda. “Quando a gente tem um hobbie, dá um jeito de monetizar porque, infelizmente, a gente precisa de dinheiro”. Além de bordar, ela também canta e pinta.

Trabalho desenvolvido por Merydiane ainda na infância. Fonte: Ana Flávia Oliveira.

Mery é formada em Serviço Social pela Unicentro e cursa mestrado em Ciências Sociais Aplicadas na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Mesmo formada em outra área, ela continua se dedicando ao bordado. Merydiane já trabalhou nas famosas feirinhas da Unicentro e da XV de Novembro, mas hoje produz artesanatos apenas por encomenda.

 “Os clientes entram em contato pelo Instagram ou pelo WhatsApp mesmo, me contam um pouco das suas histórias, das suas ideias e eu monto a arte, seguindo sempre as ideias do cliente e usando a criatividade pra dar um pouco da minha cara também”, explicou.

Para Merydiane, o bordado representa o carinho, o cuidado e o amor. Todos os trabalhos que ela realiza são importantes, mas os que mais marcam são os ligados a questões familiares. Muitas pessoas ao fazerem encomendas de artes compartilham histórias com a artesã. “É lindo pensar que tô participando desse pontinho da história de alguém”.

O Serviço Social como formação

As paredes da sala onde conversávamos são revestidas por diversas frases, dentre elas “Militarização fascista não”. Essa expressão reflete os princípios que o Serviço Social defende, e muitas vezes, aqueles que adentram essa área, dificilmente seguem outro rumo que não seja o engajamento em causas sociais. Naturalmente, nossa conversa, também seguiu por esse caminho. 

Merydiane é técnica em Administração e cogitou cursar o mesmo no ensino superior ou fazer Pedagogia. Ao ser questionada sobre o porquê de ter ido para o Serviço Social veio um suspiro acentuado seguido de um sorriso. Os caminhos da vida acabaram a conduzindo para essa profissão. Ainda no ensino médio, passou por episódios de racismo e foi nesse período que iniciou o processo de auto descoberta como uma mulher negra e voltou seu olhar para questões raciais. 

“Cada dia que passa eu vejo que eu tô no lugar certo no sentido de que, poxa, eu me descobri pra caramba nesses anos, eu me entendi como mulher negra, me entendi também como mulher LGBT+”. O objetivo de Mery é justamente levar esse autoconhecimento para outras pessoas.

Durante a graduação, ela atuou como bolsista da Incubadora Social da Unicentro que é vinculada com a feira agroecológica, que trabalha com a perspectiva da educação popular de Paulo Freire. Esse foi um dos conhecimentos que mudaram a vida dela. “O conhecimento já existe, só falta dar uma moldada. Nós já tivemos uma catadora (de recicláveis) escrevendo o capítulo de um livro”. 

Existe uma ponte entre o trabalho como artesã de Mery e o projeto, que aborda principalmente o trabalho manual, inclusive o próprio bordado. Hoje, a jovem está focada no mestrado, se aperfeiçoando para a docência, já que a ideia de ser professora a instigou.

A questão racial e o movimento LGBTQ+ 

Nessa trajetória, o que fortalece Merydiane é a luta para que os direitos de todos sejam garantidos. O tema de seu trabalho de conclusão de curso é “A criminalização da pobreza no contexto brasileiro: um recorte de raça e classe social”, onde abordou uma temática dolorosa, mas que, ao mesmo tempo, marcou o encerramento de um processo de autodescoberta. 

Mery já se reconhecia como uma mulher negra mas não conseguia falar abertamente sobre isso. “Tem muitas pessoas que passam por muito mais problemas que eu. Como que eu vou me colocar nesse lugar? Só que eu também tenho um lugar. Eu aprendi onde era meu local de fala pra poder fazer esse trabalho”, contou a jovem. 

No TCC, ela abordou como as mídias contribuem para reforçar a crença da população que as pessoas pretas e pobres estão mais propensas a cometerem crimes. Mergulhar nessa pesquisa ajudou Mery a compreender melhor seu lugar no mundo. Ao mesmo tempo, também a levou a refletir sobre experiências pessoais. “Pensando na minha vivência, vira e mexe a gente vai no mercado, vai num negócio e você é seguido (por seguranças), sabe?“ 

Mery afirma que a importância de se envolver com lutas sociais está em olhar para o horizonte, para além de si mesma, e reconhecer as situações em que pessoas são ameaçadas ou até mesmo morrem por serem quem são. “Se você fica quieto com essas coisas você não é mais um ser humano”. 

Para isso, ela já atuou como vice-presidente do coletivo LGBTQIAPN+ Bajubá. Durante a pandemia, o movimento realizou um mapeamento de pessoas da comunidade LGBT+ na cidade, e foi nesse contexto que Mery passou a integrar um grupo do WhatsApp criado pelo coletivo. 

Em 2023, a Unicentro registrou um caso de ataque a pessoas trans, que incluiu até ameaça de morte. Na época, Mery, como representante do centro acadêmico de Serviço Social, esteve à frente de uma mobilização contra transfobia. A partir desse episódio passou a ter mais contato com o coletivo e posteriormente assumiu a vice-presidência do grupo. 

“Se a gente não se incomodar com isso ninguém vai se incomodar”. Ela também já passou pelo coletivo (R)esistir, mas hoje não está envolvida ativamente em nenhum. “Mantenho minha militância, participo de atividades esporádicas, mas sem vínculo direto com coletivos”.

Ao final da nossa conversa, refleti sobre como algumas pessoas têm a capacidade rara de alcançar o outro das mais diversas formas. No caso de Merydiane, além de fazer isso através da arte, ela também faz por meio do engajamento em causas sociais. Mery toca almas, e conversando comigo, também conseguiu tocar a minha.

Criatividade e história é a base do trabalho artesanal. Fonte: Ana Flávia Oliveira.

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