O Brasil testemunhou, na noite de 7 de novembro, um dos eventos climáticos mais violentos já registrados no país. Um tornado com ventos que chegaram a 330 km/h destruiu Rio Bonito do Iguaçu, no Centro-Sul do Paraná, deixando seis mortos, mais de 800 feridos e um cenário de devastação rara até mesmo para especialistas.

Casas desapareceram, estruturas metálicas retorceram, árvores centenárias foram arrancadas pela raiz. O fenômeno recebeu classificação preliminar EF3 na escala Fujita, utilizada internacionalmente para medir a força dos tornados. Para entender:
- EF3 (218 a 266 km/h): provoca destruição severa: casas parcialmente derrubadas, árvores grandes arrancadas e veículos arremessados.
- EF4 (267 a 321 km/h): danos violentos: casas bem construídas são destruídas por completo.
- EF5 (acima de 321 km/h): devastação total.
Três tornados atingiram o Paraná na noite de 7 de novembro, segundo o Simepar. A revisão técnica do órgão identificou que os fenômenos mais severos ocorreram em Rio Bonito do Iguaçu e no distrito de Entre Rios, em Guarapuava, ambos agora classificados como EF4. Em Turvo, a intensidade foi mantida em EF2.
A atualização da classificação confirmou que o tornado de Rio Bonito do Iguaçu atingiu força EF4, nível capaz de destruir estruturas inteiras e arremessar veículos. O mesmo grau de severidade foi observado no tornado que passou por Entre Rios, enquanto Turvo permaneceu na categoria EF2. O conjunto desses três eventos configurou uma noite excepcional de extremos meteorológicos no estado.
E tudo isso ocorreu no mesmo período em que líderes mundiais se reuniam em Belém para a COP30, a conferência anual da ONU sobre clima. A tragédia paranaense virou, assim, um espelho dos debates globais: ela mostra que o aquecimento do planeta já está produzindo efeitos diretos e devastadores.
Mas afinal: o que é a COP30, e por que ela importa para o Brasil?
Para compreender a dimensão do encontro, é preciso voltar a 1992. Naquele ano, mais de 150 países reuniram-se no Rio de Janeiro na Cúpula da Terra (Rio-92), marco internacional que reconheceu oficialmente que as atividades humanas, como queima de combustíveis fósseis e desmatamento, estavam alterando o clima do planeta.
Realizada pela primeira vez na Amazônia, em Belém (PA), a COP30 (Conferência das Partes) de 2025 é um marco histórico para o Brasil. A Conferência é o órgão decisório da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), tratado assinado na Rio-92 para controlar a emissão de gases estufa.
- Como funciona: anualmente, líderes de 195 países (“Partes”) se reúnem para negociar metas, firmar acordos e assegurar que as ações globais limitem o aquecimento do planeta. O Acordo de Paris, assinado na COP de 2015, comprometeu os países a limitar o aumento da temperatura a 1,5 ºC em relação ao período pré-industrial – marca que, infelizmente, já foi alcançada.
- O que está em jogo: na COP30, os temas centrais incluem adaptação (preparar cidades para os impactos), financiamento climático, o mecanismo de perdas e danos (recursos para países pobres atingidos por desastres) e a urgência da mitigação (redução de emissões e do uso de combustíveis fósseis).
A COP30, realizada em Belém, é considerada histórica por três motivos:
1. É a primeira vez que uma COP ocorre na Amazônia, bioma-chave para a estabilidade climática global.
2. Marca o retorno do evento a um país democrático, após anos sediado em nações com regimes autoritários.
3. Coloca o Brasil no centro das negociações climáticas, já que nossa floresta e nossas emissões agrícolas têm peso global.
E a tragédia do Paraná, ocorrida no meio da conferência, ganhou força simbólica: é um exemplo concreto do que está sendo discutido em teoria nas mesas de negociação.
Por que tornados estão ficando mais intensos no Sul do país?
Embora pareça surpreendente para boa parte da população, tornados não são fenômenos raros no Sul do país. A região é, segundo meteorologistas, uma das áreas mais propícias do mundo à formação desse tipo de tempestade, atrás apenas da “Tornado Alley”, nos Estados Unidos.
E essa vulnerabilidade não é restrita ao Paraná: ela se estende por Santa Catarina, Rio Grande do Sul e parte dos territórios de Paraguai, Uruguai, Argentina e Bolívia, explica a especialista em tornados Karin Linete Hornes, professora da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
Um estudo das pesquisadoras Loriane de Almeida e Maria Cristina Pietrovski mostra que, entre 1972 e 2025, a região Sul registrou 514 tornados, uma média elevada, que reforça a necessidade de monitoramento e preparação.

Mas afinal, por que isso acontece? A resposta está no encontro de massas de ar muito diferentes entre si. Ventos quentes e úmidos, que sobem do Norte e Centro-Oeste do Brasil, colidem com ventos frios e secos, trazidos pela massa polar que avança pelo Sul do continente.
“Quando essas duas massas se encontram, temos a formação de uma frente fria. O termo ‘frente’ vem de fronte, de batalha, porque é o local do embate entre o ar quente e o frio”, explica a geógrafa Leila Limberger, pesquisadora da Unioeste.
Esse processo sempre existiu na região, mas, em um planeta mais quente, ele se torna mais perigoso. O aquecimento global faz com que a atmosfera retenha mais vapor d’água, acumule mais energia e libere essa energia de forma mais explosiva. Resultado: tempestades mais intensas, supercélulas mais organizadas e tornados mais destrutivos, como o que atingiu o Paraná, com ventos acima de 300 km/h.
Pesquisas do NAPI Emergência Climática da UFPR alertam que, no Paraná, a tendência é de aumento nas temperaturas máximas, com chuvas mais intensas e secas mais severas. Esses extremos impactam a agricultura, a biodiversidade e aumentam a frequência de queimadas, agravadas pelo inverno mais quente e seco. O professor Francisco de Assis Mendonça, coordenador do NAPI, alerta que o estado já corre riscos de enfrentar problemas como secas fortes e vendavais danosos, e que já estamos “atrasados nas medidas” para mitigação e adaptação.
O Paraná já vive a emergência climática – e Rio Bonito expôs isso ao mundo
A tragédia em Rio Bonito do Iguaçu não ocorreu em um vácuo. Ela acontece justamente no momento em que o Brasil tenta consolidar sua posição como liderança global na agenda climática durante a COP30, realizada em Belém. E funciona como um lembrete doloroso de que as discussões internacionais sobre clima não podem continuar distantes do cotidiano das cidades brasileiras.
A COP30 dedica parte de sua agenda ao financiamento para adaptação, recursos destinados a preparar países e comunidades para enfrentar eventos extremos. O Paraná, com sua sequência crescente de vendavais, estiagens, queimadas e agora um dos tornados mais violentos de sua história, é um exemplo concreto de por que essa pauta deixou de ser preventiva e se tornou emergencial.
Mas não é só o clima que determina o tamanho da destruição: é a desigualdade. A tragédia expôs um padrão conhecido por especialistas como racismo ambiental, conceito que descreve como populações pobres, negras, periféricas e rurais, aquelas que menos contribuíram para a crise climática, são justamente as que mais sofrem seus impactos.
A especialista de Clima e Racismo Ambiental do Geledés, Mariana Belmont, que participa dos debates da COP30 em Belém, resume esse quadro com precisão: “A crise não afeta todo mundo da mesma forma. Por isso falamos em racismo ambiental. População negra, mulheres, mulheres negras e comunidades com pouca infraestrutura enfrentam a crise climática com muito mais vulnerabilidade”.
Durante a Cúpula de Líderes da COP30, 43 países e a União Europeia assinaram a Declaração de Belém, que reconhece que os efeitos das mudanças climáticas atingem de forma desproporcional às populações afetadas por pobreza, fome, desigualdade e vulnerabilidade estrutural. Rio Bonito do Iguaçu é um retrato emblemático desse desequilíbrio: infraestrutura limitada, renda baixa e comunidades expostas a riscos que se agravaram nos últimos anos.
A conferência também discutiu o mecanismo de perdas e danos, criado para financiar a reconstrução de regiões devastadas por eventos extremos, exatamente o tipo de tragédia que o município paranaense vive agora. Para especialistas, é fundamental que o Brasil use casos como o de Rio Bonito para pressionar por mais recursos internacionais destinados à adaptação, prevenção e reconstrução.
Outro ponto central na COP30 é a proteção das florestas, tema que dialoga diretamente com a realidade do Paraná. O estado preserva hoje apenas 0,8% da cobertura original da Mata Atlântica, segundo o SOS Mata Atlântica.
“De 8 milhões de hectares, sobraram 60 mil, em pequenos fragmentos”, alerta Clóvis Borges, diretor-executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem (SPVS).
Ele lembra que o último estudo com checagem em campo, feito há mais de 20 anos, apontava uma perda entre 3 e 6 mil hectares por ano, um ritmo de degradação que pressiona ecossistemas e fragiliza ainda mais o território diante de eventos extremos.

Rio Bonito do Iguaçu sintetiza essa tendência. Em 1985, o município tinha 56,8% de floresta e 35,5% de área agropecuária. Quase quatro décadas depois, os números se inverteram: 67,9% do território é ocupado por agropecuária, e restaram apenas 24% de cobertura vegetal. A cidade deixou de ter a proteção natural que florestas proporcionam – e, quando o tornado chegou, o solo plano e desmatado se transformou em um corredor aberto para a destruição.
A emergência climática no Paraná não é um anúncio: é um fato. E agora, após a COP30, o estado deixa uma lição inequívoca para o mundo.






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