O avanço do streaming e a ascensão das redes sociais, não impediu que  as novelas continuassem num espaço especial na vida dos brasileiros. Elas são mais do que entretenimento: fazem parte da cultura nacional, ditam tendências, criam ícones e, não raro, inspiram transformações sociais.

Provas dessa afirmação são frequentes, tal como quando o país parou para descobrir quem matou Max, no final de Avenida Brasil, em 2012. Segundo o Ibope, a novela registrou 51 pontos de audiência neste dia. Ou seja, três em cada quatro televisores estavam sintonizados no desfecho da trama.

 Esse envolvimento coletivo diz muito sobre a força das novelas, que formam opinião, unem gerações e se tornam parte da memória afetiva do país. E não são apenas em dias de plot twist que as novelas ganham audiência. 

Da ficção ao guarda-roupa: novelas ditam moda e comportamento

Nem todos os aparelhos ligados estão atentos para saber quem matou Odete Roitman. Ao longo das décadas, outros personagens marcantes lançaram tendências que rapidamente se espalharam pelo país. 

O exemplo mais icônico é o de Giovanna Antonelli, responsável por influenciar a moda em diferentes momentos: as pulseiras de Jade, em O Clone (2001), as unhas azuis de Clara, na novela Em Família (2014) e o maximalismo da delegada Helô, em Salve Jorge (2012).

As personagens de Giovanna Antonelli são um capítulo à parte da moda nas novelas: acessórios, esmaltes e looks que viraram febre. Fonte: fotomontagem com imagens do Google.

Para os brasileiros, consumir novelas é algo natural, feito em casa e repassado entre gerações. É o caso da empresária Jane Theodoro (52), que se diz noveleira desde sempre.
“Lembro da época da novela Rebelde, que meu filho amava. Por causa da personagem Roberta, pintei o cabelo de ruivo e até hoje mantenho essa cor. Hoje até tento não acompanhar nenhuma, pra não ficar presa… mas não dá! Vejo uns trechinhos nos intervalos e já fico curiosa pra saber mais”.
Assim como Jane mudou o cabelo por conta de uma novela, é inegável destacar que o impacto das novelas vai muito além do figurino e do consumo de televisão.
As falas dos personagens também atravessam a tela e ganham vida nas ruas, nas redes e nas conversas do dia a dia. Bordões como: “É a treva!”, da personagem de Isabelle Drummond em Caras & Bocas, de 2009, mostram como o discurso televisivo ajuda a moldar o jeito de falar, ou então “Inshalá, muito ouro”, da personagem de Carla Diaz em O Clone.

Quando a novela escreve a vida real

As novelas não apenas refletem a sociedade, como também ajudam a transformá-la. Um dos exemplos mais emblemáticos é o de Mulheres Apaixonadas (2003), de Manoel Carlos, cuja repercussão foi tão grande que contribuiu para a aprovação de três leis importantes no Brasil.

  • Estatuto do Idoso: as cenas em que Dóris (Regiane Alves) maltratava os avós Leopoldo (Oswaldo Louzada) e Flora (Carmem Silva) aceleraram a tramitação do projeto, aprovado em setembro de 2003, antes mesmo do fim da novela.
  • Lei Maria da Penha: a história de Raquel (Helena Ranaldi), que sofria agressões do marido Marcos (Dan Stulbach), reacendeu o debate sobre a violência doméstica e impulsionou a criação da lei sancionada três anos depois.
  • Estatuto do Desarmamento: a morte de Fernanda (Vanessa Gerbelli), vítima de bala perdida, sensibilizou o público e reforçou a urgência da legislação aprovada no mesmo ano da exibição da trama.

E não foi um caso isolado. Segundo a Exame, a exibição de uma cena de Vale Tudo (2025) que tratava de pensão alimentícia aumentou em 50% os pedidos de atendimento sobre o tema em São Paulo na semana seguinte.

Na cena, a personagem de Daniela (Jessica Marques) explica a Lucimar (Ingrid Gaigher) sobre os direitos do filho à pensão do pai – Foto: Globo

Memórias que transcendem ao tempo

Mesmo quem nasceu depois dos anos 2000 conhece a emblemática cena de Carolina Dieckmann raspando a cabeça ao som de Love By Grace, em Laços de Família, exibido no ano 2000. 

A sequência se tornou símbolo de emoção e empatia, mostrando que certas histórias ultrapassam gerações e seguem vivas no imaginário popular. Esse é o caso do publicitário Vitor Carneiro.

 “Eu era muito novo quando Laços de Família passou pela primeira vez na TV e nunca assisti à novela inteira, só algumas partes quando reprisaram. Mas sempre que sento na cadeira do salão pra cortar o cabelo, essa é a primeira cena que me vem à cabeça”, afirma Vitor.

A nostalgia também se mantém graças às reprises do Vale a Pena Ver de Novo e ao catálogo do Globoplay, que disponibiliza tramas clássicas. Em tempos de streaming, as novelas continuam encontrando público, seja entre quem quer reviver memórias, ou entre jovens que estão descobrindo esses universos pela primeira vez.

Reflexos de uma sociedade: a novela como espelho do Brasil

Estudos mostram que o impacto das telenovelas vai além da cultura pop. Um levantamento do Centro de Investigação de Política Econômica (CEPR), de Londres, revelou que a representação de famílias pequenas nas tramas contribuiu para a queda da taxa de natalidade no Brasil. O índice caiu de 6,3 filhos por mulher, em 1960, para 2,3 em 2000, um fenômeno que os pesquisadores associam à influência dos modelos familiares retratados na TV.

O famoso “meme da Nazaré confusa” vem de uma cena da novela Senhora do Destino (2004), em que a personagem interpretada por Renata Sorrah aparece tentando fazer cálculos mentais – GIF: Globo/

As novelas, portanto, não apenas acompanham as mudanças da sociedade brasileira: elas as antecipam, tensionam e transformam. Seja inspirando cortes de cabelo, promovendo debates ou impulsionando leis, o fato é que elas continuam sendo um espelho do Brasil em todas as suas contradições e encantos.

Deixe uma resposta

Trending

Descubra mais sobre Prisma de Notícias

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading