Você já ouviu falar em complexo de vira-lata? Esse termo foi utilizado pela primeira vez pelo jornalista Nelson Rodrigues numa crônica publicada em 1958, pouco antes da estreia do Brasil na copa daquele ano. O viralatismo, segundo ele, seria o sentimento de inferioridade do país em relação a outras nações.
Hoje, o termo é utilizado em diversas áreas para além do futebol, como na cultural e em discussões sobre racismo. Pensando no complexo de vira-lata no dia a dia, pode-se dizer que ele se relaciona fortemente com uma tentativa fracassada que fazemos de ignorar nossas próprias mazelas.
“No cinema brasileiro só tem putaria, favelas, tráfico e corrupção”. Ouço essa afirmação com certa frequência e, se esses temas incomodam, é porque eles, de fato, fazem parte da nossa realidade. Mas, nesse caso, por que deveríamos ignorá-los e excluí-los das nossas representações artísticas e culturais?
Trazendo esse raciocínio para um cenário local, também não é incomum a nossa tentativa, como guarapuavanos, de ignorar os problemas sociais que nos cercam. Sim, Guarapuava pode ser uma cidade mais tranquila, principalmente por ser interiorana. Mas, questões como machismo, feminicídio, prostituição e desigualdade sociais estão sim presentes no nosso cotidiano. E não vamos esquecer, claro, das características de um sistema coronelista que ainda persistem no cenário político.
Um livro que aborda problemas sociais de Guarapuava
Bruno Aurélio traz em Noite Adentro exatamente essas questões. Ao contrário do que geralmente fazemos como sociedade, o autor deu voz, cara e nome para aqueles que sofrem com violência e injustiças, e também para os que as causam.
Quando recebi um exemplar, na dedicatória o autor me alertava “leia com cuidado”. Agora deixo essa mesma recomendação. Noite Adentro traz temas pesados, como assassinatos, abusos, estupro e roubo da infância, ou seja, roubo da própria vida.
Ao todo, a obra tem 12 contos e um poema, sendo Guarapuava e região o palco das histórias. Os protagonistas variam entre homens, mulheres, meninas e meninos. Idosos, crianças, gente rica, gente pobre, travestis. E embora, como eu disse anteriormente, por vezes, nós ignoremos algumas realidades, é impossível não trazer à mente cenas cotidianas ao ler o livro. Ruas, bairros e um dos cartões postais da cidade nos fazem sentir essa familiaridade.
Apesar dos temas sensíveis que são abordados, a escrita é fluida de forma que você sempre anseia por ver o que virá no conto seguinte (quem sabe na esperança de ver algo menos doloroso, menos real). Coisa que não acontece.

Noite Adentro foi lançado em 2024 e reúne contos inéditos e alguns publicados em antologias. Fonte: Banco de imagens Unicentro
Noite Adentro
O último conto, que carrega o nome do livro, traz outro assunto bastante recorrente na obra: a hipocrisia da classe burguesa. Jampier, o protagonista, pertence a uma família rica, dona de uma empresa. Machista, ele não aceita o desejo da esposa de se divorciar.
Numa noite, Jampier conhece Mariana, por quem se encanta, mas se revolta quando descobre que ela é uma mulher trans e a agride. “Arrependido”, ele volta atrás e inicia um relacionamento com ela ao mesmo tempo que conflita com o irmão, Bernardo, que quer Jampier fora dos negócios da família, e com a esposa, Glória, que ele parece odiar.
O protagonista trata-se de um claro rico mimado que tem o mundo a seus pés. Ele brinca com as vidas dos demais personagens de acordo com o que lhe convém. Jampier, inclusive, atropela uma prostituta no bairro Paz e Bem por pura diversão, para se ter uma ideia.
Logo após esse crime, Jampier dá um banho de loja na nova amante e volta para casa, “reapaixonado” pela esposa. Ele quer ser um novo homem, um novo marido. “Deus, pátria e família”, diz ele.
Sem mais spoilers, o gran finale acontece no bairro Cidade dos Lagos. Um final incerto, com armas e policiais, deixa ecoando na nossa cabeça a frase “pois não havia mais ninguém dentro de mim”.
A ficção imita a vida
A falta de humanidade de Jampier, assim como em vários outros personagens, em nenhum momento faz com que o vejamos como vilão, apesar dos seus atos. Tudo o que acontece no livro, a violência, a hipocrisia cristã, o machismo, nada disso nos faz pensar que há um vilão nas histórias. Todos ali são humanos que não tem nada de humanidade dentro de si.
Outra temática que chama a atenção na obra é o roubo da infância. Em alguns dos contos, vemos crianças vivendo situações de abuso, de perda e de exposição precoce à pornografia. São histórias que nos levam a pensar a que caminho estamos indo como sociedade.
Assim como as crianças, o autor também teve o cuidado de retratar mulheres sendo afetadas das mais diversas maneiras por um sociedade patriarcal que não se cansa de tentar controlar os nossos corpos. Como eu disse, é como um roubo da própria vida.
Meu objetivo aqui não é dar uma sinopse de cada conto, mas é impossível não destacar a presença de um pastor charlatão, visto que vivemos num cenário em que algumas pessoas tentam fortemente atrelar Estado com religião. Também temos isso em Noite Adentro: a fé das pessoas sendo levada na brincadeira em prol do dinheiro. O “religioso” tem até mesmo um heliponto na igreja.
Um incentivo para um novo olhar
Bruno Aurélio, além de autor, é vendedor de bolos. O contato com tantas pessoas diferentes pela cidade tornaram seu olhar atento para realidades distintas.
Com isso, talvez o grande mérito da obra seja o de nos fazer abrir os olhos para Guarapuava: nós não estamos livres da violência e das injustiças sociais. Cada conto imita um pedaço da nossa realidade.
Quem sabe, com essa leitura, deixemos de olhar para os problemas alheios e nos atentemos aos nossos próprios problemas. E quando digo nós, me refiro aos guarapuavanos.
Confira os contos presentes no livro:
- Terra sangrenta;
- O sádico de Guarapuava;
- Mãe Rita;
- Um casal em Guarapuava;
- Não saiu nos jornais;
- Parque do Lago: outra margem;
- Anaela;
- O espetáculo da graça divina;
- Reizinho;
- Botando pra quebrar;
- Espantalho malvado;
- Nossos corpos;
- Noite Adentro.
Onde comprar o livro?
Noite Adentro pode ser adquirido diretamente com o autor. Basta entrar em contato com Bruno Aurélio pelo Instagram @brunoaurelioescritor. O livro também pode ser comprado pela Amazon no formato ebook.






Deixe uma resposta