Chegando na casa de Sônia Giorno, tive uma grata surpresa ao perceber que a residência dela era como um museu de pequenas histórias. Em sua estante, uma coleção de revistas e livros, vários deles sobre a história da cidade. Muito me lembrou do dia em que a conheci, em um evento no Museu Visconde de Guarapuava, foi quando a entrevistei pela primeira vez, sem nem imaginar quantas histórias ela poderia me contar. Foi ali que encontrei uma guardiã de memórias guarapuavanas que, muito solícita, falou sobre sua relação com objetos e locais antigos, além do próprio museu.
A vista em sua residência combinava com a simpatia da senhora de cabelos brancos curtos e olhar doce e calmo. Sônia disse que sua família foi a primeira a morar ali, o local que ela chamou de “Sol Nascente”. Me falou que de sua varanda, ela vê o nascer do sol através das várias árvores, além de receber visitas frequentes de tucanos e macacos. Sentada em sua sala repleta de memórias, relembrou sobre sua vinda ainda criança de Chapecó para Guarapuava, quando o patriarca da família decidiu mudar de cidade por conta de uma crise financeira.
“Nós chegamos aqui em um dia frio, chuvoso. A Rua XV era de paralelepído solto, eu pisava e pulava barro. As casas todas fechadas, nenhuma alma viva e um vento que cortava. Pra mim era uma cidade mal assombrada, eu voltei para casa chorando naquele dia”, relembrou ela, com uma risada na ponta da língua, como se para ela fosse cômico um dia ter odiado Guarapuava.
As coisas mudaram quando o pai de Sônia conseguiu um trabalho na cozinha do Clube Guaíra, considerado a morada da elite guarapuavana, o clube era um imponente casarão localizado na Rua XV, lá se reuniam os coronéis da cidade para bailes, festas de debutantes e eventos importantes.
No começo da adolescência, a família passou a morar nos fundos de um casarão que ficava entre o clube e a prefeitura da cidade, nessa época, Sônia frequentava os bastidores das festas ajudando os pais na cozinha e quando o baile chegava ao fim era seu momento de diversão. “Tinha noites que terminavam muito tarde e a gente acabava dormindo lá. Eu dormia em um sofazinho nos fundos do clube e durante a noite saia andando por aquele salão enorme, completamente vazio… lindíssimo, eu ficava curtindo aquele momento”.
“Foi ali que começou meu amor por esses casarões, o Clube Guaíra era maravilhoso, você não tem ideia! Era tudo desenhado, tudo cheio de detalhes”, me disse com um sorriso caloroso e empolgado.
Sônia relembrou sobre cada casarão da Rua XV, construídos em pedra e com inúmeras janelas, ela andava pela rua com a curiosidade a mil. “Em frente a minha casa, onde hoje é o Hotel Atalaia, ficava o Bar América, era de uma família que era amiga nossa. Mais para frente onde hoje é uma farmácia tinha um casarão lindo, o muro era cheio de trepadeiras enormes… Tinha um portão misterioso, que me matava de curiosidade, nunca tive coragem de entrar descobrir o que era, mas era lindo, tinha flores que caiam nas grades”, dizia com um ar nostálgico.

Em uma das fotos que me mostrou, com pesar ela me fala sobre um casarão específico que tinha mais janelas do que podia contar, algumas décadas atrás foi abaixo para construção de uma loja.
Tendo dentro de si essa paixão por coisas antigas, ela passou a garimpar móveis e objetos antigos e em uma de suas buscas, encontrou um roupeiro de época que o vendedor jurava que pertenceu ao Visconde de Guarapuava, deteriorado pelo tempo e com muitos cupins, o roupeiro foi levado para restauração e com o tempo esquecido na casa de uma amiga de Sônia.
Quando se aposentou do banco em que trabalhava, decidiu ao lado da irmã montar uma oficina para restaurar móveis usados, para isso fizeram cursos e aos poucos foram pegando trabalhos pela cidade. Após ficarem conhecidas no ramo, a Secretária da Cultura as procurou para a missão de restaurar o Museu Visconde de Guarapuava, dando o prazo de quatro meses para entregar o museu pronto, já que aquela era promessa de campanha do prefeito e estava em ano eleitoral.
“Derrubaram um caminhão de coisas na nossa oficina, tinha móveis de tudo que é lugar nos galpões da prefeitura. Restauramos até o quadro do Visconde, a gente colocava ele embaixo da cama da minha irmã, de tanto medo de que fosse roubado”, disse rindo enquanto lembrava.
Durante a jornada de restauração, Sônia teve a ideia de fazer o quarto do Visconde. Cama de palha, criado mudo, quinquilharias diversas, mas ainda faltava algo para dar o tom do quarto, em uma catarse, se recordou do roupeiro que a muito estava esquecido. Quando contatou a amiga, descobriu que o móvel estava em piores condições do que quando o comprou, mesmo assim pediu para o trazer até a pequena oficina. “Eu não acreditei quando vi uma carroça com um único cavalo chegando com o roupeiro, parecia coisa de época mesmo”, contou rindo enquanto lembrava da cena memorável. O museu foi entregue e até hoje o roupeiro se encontra lá, compondo a obra da Oficina Di Giorno.

Dentre suas muitas histórias, Giorno se mostrou uma grande viajante, França, Portugal, Roma, Machu Picchu, Israel, Grécia e muitos outros lugares onde se apaixonou pela culinária, pelas paisagens, pela cultura e pela história, mas nenhum outro lugar a tocou tanto quanto Guarapuava. “Fui para Chapecó levar uma tia ano passado… Não tenho nada a ver com aquele lugar, eu sou daqui. Gosto muito de viajar, mas amo voltar para cá. Amo o frio, amo o vento, tem gente que reclama e eu adoro!”.
Com todas as histórias e memórias para compartilhar, Sônia começou a escrever. A paixão pela escrita veio de sua infância, revelou que sempre amou ler, e visitava muito a biblioteca da cidade, que na época era onde hoje é o próprio museu. Atualmente tem dois livros já publicados e um blog onde ela escreve crônicas de vivências diversas.
Ao falar sobre a escrita, Sônia disse ser uma forma de eternizar os momentos que marcam a história. “Eu amo escrever, principalmente quando vem tudo na cabeça, quando escrevo sobre essas memórias de infância é tudo muito vivido pra mim, lembro certinho”.
Muitas dessas crônicas são ambientadas aqui na cidade, algumas resgatando o tempo da sua infância, conectando com o moderno.
“Guarapuava tem uma essência linda, mas foi muito detonada. O pouco que restou eu rezo para ser preservado, e faço o máximo para valorizar… escrever sobre essas lembranças é documentar um pouco do que foi a cidade, devolvendo um pouco do que esse lugar fez por mim”.






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