Hoje, dia 21 de outubro, é celebrado o Dia Mundial de Luta contra a Patologização da Transexualidade. A data representa um marco na busca pela dignidade e afirmação de que identidade de gênero não é doença, mas sim uma manifestação da diversidade humana. Afinal, a luta é longa. 

Em 2019, o ativismo trans conquistou um avanço histórico: a retirada da transexualidade do rol de transtornos mentais da Classificação Internacional de Doenças (CID-11). Essa vitória, no entanto, não encerrou o desafio, apenas reforçou a urgência de combater o preconceito e a violência que persistem na sociedade.

No Brasil, onde a expectativa de vida de pessoas trans e travestis não chega aos 40 anos, há outras preocupações, pois o país lidera o ranking mundial de assassinatos dessa população (Dossiê ANTRA 2023). 

Para sobreviver, as pessoas trans precisam ter resistência. E é nesse contexto que o apoio familiar se torna mais do que um conforto; ele é uma condição de sobrevivência.

Apoiar não é exceção, é condição de existência

A família pode ser o divisor de águas entre a exclusão e o pertencimento. O apoio de pais, mães e irmãos constrói um chão seguro para a afirmação identitária em um mundo hostil. 

É assim que surgem as histórias de Júlia Be e Vitória Bucheneki, duas mulheres trans que encontraram nas suas relações familiares um solo fértil para florescer. Em comum, ambas tiveram a sorte e a coragem de contar com figuras femininas que aprenderam a amar para além das normas cisgêneras.

Uma mãe, um casaco e o começo de tudo

Júlia guarda até os dias de hoje o casaco de pelos que ganhou de Dona Eunice. Foto: Ana Clara Nicoletti

Para Júlia Belinda dos Santos, a transição de gênero poderia ter sido um processo solitário, mas foi um gesto simples que marcou o início da aceitação plena. 

No início, a mãe de Júlia Be ainda insistia em roupas masculinas, fruto de uma desinformação comum. Mas, aos poucos, ela entendeu que o desconforto da filha não era vaidade, mas sim identidade. 

Um presente foi a virada de chave, e o casaco feminino de pelo sintético, dado por sua mãe, Eunice Santos, mudou tudo. Júlia descreve esse momento com profunda emoção:

“Você se lembra, mãe? Parece que eu me transformei em outra pessoa. É como se naquele momento eu tivesse transicionado de verdade. Eu me sentia mulher. E eu sentia que você sentia o mesmo”, relata Júlia, ao olhar para Dona Eunice.

Irmandade como escudo e ponte

A história de Vitória Bucheneki, por sua vez, expõe outra face da vivência trans: a violência doméstica. Nos primeiros passos de sua transição, Vitória só encontrou em sua irmã, Vanessa, um alicerce. O laço fraterno se tornou ainda mais complexo e urgente, pois Vanessa também passava por um processo de descoberta como mulher lésbica.

“Era como se estivéssemos quebrando dois armários ao mesmo tempo. Eu ainda estava me entendendo, com medo do julgamento da família. Mas quando a gente se olhou como irmãs LGBTQIA+, entendi que a gente precisava se proteger”, conta Vanessa.

Vitória e Vanessa Bucheneki encontraram apoio uma na outra em meio a conturbação do processo de aceitação da sexualidade e identidade. Foto: Ana Clara Nicoletti.

O caminho das irmãs foi difícil. Foram cinco anos de conflitos, afastamentos e reencontros, que resultaram na saída de Vanessa de casa. Paradoxalmente, a dor do distanciamento acabou fortalecendo a relação fraterna e, com o tempo, motivando os pais a reconstruírem os laços com Vitória.

O professor e psicólogo Guilherme Almeida explica que a dificuldade da aceitação perpassa por muitas camadas dentro da estrutura de uma família. “Quando o sujeito se reconhece em uma identidade de gênero diferente da que lhe foi designada no nascimento, isso causa um mecanismo de luto no seio familiar”, pontua.

Vanessa assumiu o papel de ponte. Ela começou a frequentar reuniões de organizações de apoio e, pacientemente, passou a educar os pais sobre transgeneridade, mostrando que a questão vai além da estética, tocando no direito fundamental à existência.

Dignidade em cada vínculo

Seja no calor de um casaco ou na cumplicidade protetora de uma irmã, o apoio familiar de Júlia e Vitória é a prova de que o amor incondicional pode moldar destinos. 

A palavra incondicional significa, segundo o dicionário brasileiro, “que não está sujeito a qualquer tipo de condição, restrição ou limitação”. É este tipo de afeto, livre de condições e limites, que o Prisma de Notícias celebra neste 21 de Outubro. O reconhecimento do suporte familiar é um fator decisivo para a trajetória de vida de toda pessoa trans no Brasil.

Reconhecer a identidade trans é um ato político e de carinho. Essas famílias ensinam que a luta pela despatologização se dá, sobretudo, na intimidade de cada lar que escolhe o acolhimento em vez da rejeição. É a partir desse amor construído em casa que pessoas trans podem seguir em frente, vivendo plenamente e transformando a realidade ao seu redor.

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