O som suave de uma agulha deslizando sobre um disco. A capa grande, com cores vibrantes, ocupando as mãos como um objeto precioso. Em tempos de playlists instantâneas e consumo acelerado de música, há quem escolha o caminho inverso: voltar ao vinil.
Os discos de vinil não são apenas um meio de reproduzir música; são também uma viagem no tempo. Cada estalo e chiado transporta os ouvintes para uma era em que a música era apreciada em sua forma mais pura. O ato de colocar um vinil para tocar funciona quase como um ritual, uma pausa na correria do dia a dia para apreciar cada detalhe sonoro.
Essa nostalgia tem desempenhado um papel crucial no renascimento do vinil. Para muitos jovens, ouvir um disco herdado dos pais ou avós é também um elo com a memória familiar e cultural. A herança musical é um dos motores da redescoberta do vinil. Muitos jovens tiveram contato com discos ainda na infância, em momentos de convivência familiar, e trazem essa memória para a vida adulta.
A história do vinil atravessa gerações. Sua origem remonta ao final do século XIX, quando o alemão Emile Berliner desenvolveu o gramofone e os primeiros discos planos, que substituíram os cilindros de Thomas Edison. No entanto, foi apenas em 1948, com o lançamento do LP (long play) pela Columbia Records, que o vinil se consolidou como o principal suporte musical do século XX.
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Durante décadas, ele foi o aparelho que conectava as trilhas sonoras de famílias inteiras, até perder espaço nos anos 90 com a chegada do CD e, depois, do MP3 e do streaming. Contudo, o vinil nunca desapareceu completamente: sobreviveu em nichos de colecionadores e DJs, até que, a partir de 2010, voltou a ocupar prateleiras de lojas e playlists afetivas de jovens no mundo inteiro.
Nos últimos 20 anos, os discos de vinil deixaram de ser apenas objeto de colecionador para se consolidarem como tendência global. De acordo com a Recording Industry Association of America (RIAA), as vendas de LPs superaram as de CDs em 2022 pela primeira vez desde os anos 1980.
Esse movimento não se restringe a colecionadores nostálgicos. Grande parte da demanda vem de jovens, que cresceram na era do streaming, mas se encantam com a experiência física e sensorial do vinil.
O boom brasileiro
No Brasil, a cena não é diferente. Segundo dados do Estadão, o faturamento com LPs cresceu 136% em 2023, consolidando um novo perfil de consumidor. Enquanto antes o vinil era associado a colecionadores e audiófilos, hoje ele ocupa espaço entre jovens que buscam conexão com a cultura analógica e identidade musical diferenciada.
As grandes gravadoras voltaram a investir no formato, e artistas contemporâneos já lançam álbuns em LP ao lado do digital. As grandes gravadoras voltaram a investir no formato, e artistas contemporâneos já lançam álbuns em LP ao lado do digital, por exemplo, Jão, Liniker e Matuê têm recentes edições em vinil de seus lançamentos.
O vinil também é fundamental para a cena do rap e da música negra brasileira. Artistas como Marcelo D2, KL Jay, Black Alien e B Negão mantêm o vinil vivo não apenas como suporte físico, mas também como matéria-prima para os samples que moldaram gerações. Para eles, o chiado e a textura analógica não são imperfeições: são parte da identidade sonora que conecta passado e presente.

Capas de álbuns de jazz em prateleiras chamam atenção pelo apelo estético e colecionável. Você já se perguntou por que os discos de vinil estão de volta às prateleiras, mesmo vivendo na era digital? (Créditos: Helena de Julio)
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O cenário em Guarapuava
Em Guarapuava, o movimento em torno do vinil ainda é discreto, ainda que crescente a cada ano, impulsionado tanto pelo público jovem quanto por espaços que mantêm viva a cultura da música analógica. Entre esses locais está o Gato Preto, referência na cidade para quem busca discos, livros e outros artigos de época, é a loja da cidade especializada em vinis comandada por Edinaldo Pacheco, conhecido como Mackey.
Mackey explica que a ideia de abrir a loja nasceu da sua própria relação de vida com a música, já que ele sempre esteve envolvido com bandas da cidade e em busca de novos discos. Desde que abriu o empreendimento, nota as mudanças nas formas de consumo e, aos poucos, encontra novos consumidores para o vinil.
“Antes, a maioria dos clientes era formada por colecionadores mais velhos, atrás de discos raros. Hoje, tem muito jovem entrando na loja, querendo começar a coleção ou buscar aquele álbum clássico que ouviu falar. O vinil virou uma experiência para essa geração”, afirma.
Esse novo público consumidor de vinil não busca apenas ouvir música em um formato. Segundo Mackey, eles compram também a capa, a arte, o ritual de colocar o disco para tocar. Tais características, não possíveis nas plataformas streaming, criam uma conexão diferente com a obra e artista.
“Em uma época em que tudo é descartável e rápido, o vinil é o contrário: ele pede calma, atenção. É um objeto que você cuida, que dura anos e que pode passar de geração em geração”.O cenário de crescimento no consumo dos discos é bom para vários estilos musicais, embora alguns sejam mais predominantes. “O rock clássico, o MPB e o rap são muito procurados. O pessoal gosta de garimpar, de encontrar uma raridade. E muitos descobrem aqui discos que não estão no streaming”, reforça o empresário.

Loja Gato Preto, em Guarapuava, comandada por Edinaldo Pacheco, o Mackey. O espaço se tornou referência local para os amantes do vinil. (Créditos: Mackey)
Vozes da juventude
Se para muitos o vinil pode parecer apenas um resquício do passado, para jovens de Guarapuava ele se transformou em símbolo de identidade, memória e estilo de vida. Cada disco guardado em suas estantes carrega não apenas músicas, mas também histórias, rituais e afetos.
Ângelo Crystovam Macagnan, 30 anos, descobriu o universo do vinil ainda na adolescência, mexendo nas coisas antigas da família. O hábito, antes curioso, se transformou em paixão. “Meu primeiro contato com vinil foi ainda na adolescência, quando comecei a fuçar nas coisas antigas da família. Eu via aqueles discos e ficava curioso. Com o tempo, percebi que não era só sobre música: era sobre história, memória e o jeito de ouvir”.
Para ele, ouvir música em vinil é um gesto de desaceleração em meio à correria cotidiana. “O vinil me fez desacelerar. Enquanto no streaming eu escuto música fazendo mil coisas, no disco eu paro, coloco a agulha, deixo o som preencher o ambiente. É quase um ritual de presença”, completa, ressaltando ainda que há diferenças entre a sonoridade do digital e o analógico. “O streaming é prático, o vinil tem calor, tem textura, tem alma. Cada chiado é parte da experiência, é quase como se o disco respirasse junto com a música”.
Já Leandro Naves, 23 anos, tem lembranças marcantes da infância ao lado dos avós, quando o domingo era sinônimo de música em vinil. “Todo domingo a avó colocava um disco de música italiana para tocar, ou então meu avô escolhia os Beatles. Isso me marcou muito. De vez em quando eu até lembrava eles: ‘rapaziada, hoje é domingo, cadê a música?’”.

Leandro Naves, 23 anos, exibe seus discos favoritos de Michael Jackson, incluindo o clássico “Thriller”, peça central de sua coleção em vinil.
(Créditos: Helena de Julio)
Durante a pandemia, cansado do consumo incessante em plataformas digitais, Leandro redescobriu o formato em uma livraria de São Paulo. Pouco depois, herdou uma vitrola de 1960 da avó e começou sua coleção. Entre os álbuns que guarda com carinho estão Metamorfose Ambulante, de Raul Seixas, e Yield, do Pearl Jam. Só que, para ele, nenhum supera a conquista de Thriller, de Michael Jackson.
“Esse foi especial. Juntei a grana, comprei e senti que tinha alcançado uma meta. É meu cantor favorito e esse disco eu não vendo nem empresto. O ritual virou parte do seu fim de semana: “A vitrola fica no meu quarto, então todo fim de semana eu escuto tomando café e comendo pipoca. Virou quase uma refeição sagrada”.
A relação com o vinil também tem raízes profundas, como é o caso de Sílvio Vargas Martins, 27 anos, cuja família sempre colecionou discos. “Minha avó tinha uma prateleira com mais de 300 discos, de todo tipo de gênero, e meu pai também era um ávido colecionador. Ele tinha toda a discografia do Raul Seixas, além de rock e MPB. Meu primeiro contato com o vinil veio daí”.
Sílvio lembra com carinho da sua primeira compra, feita em 2012, ainda adolescente. “Era o Led Zeppelin II. Lembro até hoje: estava na prateleira de música sertaneja e custou 20 reais”.
A experiência de colocar um vinil para tocar, para ele, tem uma dimensão quase espiritual.
“A primeira vez que coloquei a agulha no vinil foi uma experiência transcendental. A qualidade do vinil é diferente, transparece nostalgia. Cada encarte, cada dedicatória traz uma história escondida que desperta curiosidade e vontade de voltar no tempo.”
Seu ritual traduz o que muitos jovens descrevem como o “prazer analógico” em meio à era digital, pois ao ouvir no toca-discos, lê as letras no encarte e observa cada detalhe do conteúdo. “É um jeito de viver a música por inteiro”.
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Como a música entra no vinil
A “mágica” do vinil está nos sulcos. Quando um artista grava uma música, ela é transformada em ondas sonoras que, em estúdio, passam por um processo de conversão em um sinal mecânico gravado em um disco-matriz. Esse molde gera cópias em vinil, com micro sulcos que registram as vibrações.
Ao colocar a agulha na vitrola, esses sulcos são lidos e transformados novamente em som. O que para muitos parece um ritual ultrapassado, para os jovens soa como uma experiência única, pois o processo confere calor, textura e pequenas imperfeições que não existem nas versões digitais.
Confira: Como funciona um disco de vinil?






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