Assistir a um filme inteiro, sem interrupções, tornou-se quase que uma prova de resistência à la BBB. Em casa, a cena é habitual: a produção começa, mas em poucos minutos, em um gesto automático, o espectador já desliza o dedo pela tela do celular. 

Até mesmo nas salas de cinema, que antes representavam um espaço de imersão, é cada vez mais comum notar pessoas dividindo a atenção entre a narrativa projetada e a luz do smartphone. 

O desvio de atenção é mais notado quando o filme ou série é assistido em um aparelho móvel, no qual a tela é compartilhada entre o conteúdo e as notificações que surgem incessantemente.

O Brasil ocupa a segunda posição no ranking de uso de telas em todo o mundo, segundo uma pesquisa DataReportal. Fonte: Freepik.

Atenção dividida causa impactos na indústria 

As consequências desse comportamento se estendem além do espectador. Plataformas de streaming, atentas à falta de atenção exclusiva do público, investem cada vez mais em formatos curtos: episódios de 20 a 30 minutos, narrativas fragmentadas em antologias e produções pensadas para serem consumidas em sequência rápida.

Como exemplo, as séries Stranger Things e Wandinha, fenômenos da Netflix. Ambas mantém episódios com 40 a 60 minutos de duração, mas são estruturadas com reviravoltas constantes para evitar a perda de interesse dos usuários. 

No cinema, a prática também é naturalizada. Roteiristas e diretores precisam multiplicar ganchos, estímulos visuais e reviravoltas para impedir que o espectador se perca no feed antes do desfecho da história. 

Em 2023, dois fenômenos de bilheteria reacenderam o debate: Barbie (dir. Greta Gerwig) e Oppenheimer (dir. Christopher Nolan). Apesar de estilos e durações diferentes — duas horas contra três —, ambos dividiram opiniões sobre ritmo, atenção e envolvimento.

Para Ariane Silva, 28, ambos os filmes pareceram longos: “Barbie tem mais cor, música e dinamismo, mas achei maçante. Já Oppenheimer, apesar do ritmo mais lento, me interessou mais pela história, mas a parte final foi bem parada e poderia ter sido melhor construída”. 

Já Leticia Facchi, 24, percebeu diferenças no apelo das narrativas: “Barbie é mais leve e previsível, enquanto Oppenheimer é denso e exige mais atenção. Essa curiosidade pelo desconhecido acabou prendendo meu interesse.”

Músicas: menos tempo, mais engajamento

Se assistir a um filme longo é difícil, ouvir músicas mais trabalhadas também tem sido um dilema. O hit pop que antes durava quatro ou cinco minutos, agora dificilmente passa dos três. Em alguns casos, não chega a dois minutos. O fenômeno não é coincidência: é reflexo direto de mudanças na forma como as pessoas consomem seus produtos, neste caso, a música digital.

Sabrina Carpenter se tornou um dos nomes emblemáticos dessa transformação. Entre os seus três principais hits do último ano, dois não tinham mais que 2m56s.

Enquanto isso, nos anos 1980 e 1990, canções com mais de cinco minutos eram tocadas integralmente nas rádios, o que dificilmente acontece atualmente. Sucessos do pop tinham uma temporalidade muito maior. Madonna, por exemplo, chegou ao topo da Hot 100 com Live to Tell de 5m51s – quase 6 minutos!

Fatores que impactam o consumo acelerado

  • Fator econômico:

Plataformas como Spotify contam uma reprodução a partir de 30 segundos, o que significa que faixas menores podem acumular mais plays em menos tempo.

Ainda assim, duração não significa perda de relevância: Taylor Swift chegou ao topo das paradas com a versão de 10 minutos da canção All Too Well acompanhada por um curta-metragem.

  • Fator cultural:

Impulsionado pelo TikTok, onde o sucesso costuma depender de formatos curtos prontos para serem recortados e viralizados em vídeos de poucos segundos. 

Filmes com cenas capazes de virar trend ganham mais visibilidade, e músicas que entregam impacto imediato se adaptam melhor à lógica das redes.

Saltburn (dir. Emerald Fennell) viralizou nas redes com a cena ao som de Murder on the Dancefloor, de Sophie Ellis-Bextor. Prova de que um momento certeiro pode transformar um filme em trend – Imagem: Metro-Goldwyn-Mayer/MRC
  • Fator estético:

Em tempos de ansiedade digital, obras mais enxutas parecem responder melhor ao consumo acelerado, entregando  tudo o que têm logo de início. 

Tanto nos filmes quanto nas músicas, o que está em jogo é a mesma lógica: moldar narrativas para caber no curto intervalo em que o foco do público se mantém.O tempo de foco, já considerado limitado na era digital, parece ter se tornado ainda mais escasso diante do bombardeio de estímulos das redes sociais.

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