Separar o lixo reciclável e colocá-lo na rua para ser recolhido pelo caminhão da coleta seletiva é rotina em muitas cidades brasileiras. Em Guarapuava, no entanto, essa prática deixou de existir de forma regular há 10 meses. 

Isso porque, o município está sem serviço público de coleta de recicláveis desde outubro de 2024. Desde a data, nenhum caminhão da prefeitura passa pelas ruas para recolher os materiais diariamente.

De acordo com a Prefeitura Municipal, o serviço foi interrompido devido a entraves jurídicos, problemas contratuais e à decisão da antiga gestão de reformular o modelo de coleta. Na prática, isso significa que um serviço essencial para reduzir impactos ambientais e manter a cidade limpa funciona de maneira instável, parcial e insuficiente. 

O potencial de geração de recicláveis em Guarapuava é de cerca de 320 a 350 toneladas por mês. Hoje coletamos só 120 toneladas, quase que integralmente vindo dos catadores, afirma o diretor de Resíduos Sólidos da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Tiago Ferreira.

Dessa forma, a reciclagem na cidade hoje depende quase exclusivamente do trabalho de catadores, formais e informais, que percorrem bairros e comércios por conta própria, muitas vezes sem estrutura ou equipamentos de proteção adequados. Ou seja, mais da metade do material reciclável produzido acaba no aterro sanitário, misturado ao lixo comum

A única maneira de os caminhões irem até residências, comércios e indústrias é com o agendamento. “O que é coletado pelos caminhões hoje é insignificante. A reciclagem está sendo mantida pelos catadores”, completa Tiago. 

A coleta seletiva em Guarapuava nos últimos ano

A trajetória da coleta seletiva em Guarapuava é marcada por idas e vindas. Em 2020, a prefeitura recebeu, via convênio com o Ministério do Meio Ambiente, três caminhões-baú para o serviço. Naquele momento, o município tinha contrato com a cooperativa Reciclasol, formada por catadores. Os veículos foram cedidos à cooperativa, que realizava a coleta sob fiscalização da Secretaria de Meio Ambiente (Semag). 

O arranjo durou pouco. No início de 2021, auditorias apontaram que os caminhões estavam sendo usados para serviços fora do contrato e até em outros municípios. Mesmo com as notificações, a cooperativa continuou com irregularidades, e o contrato foi suspenso em maio daquele ano. 

“Ficamos sem coleta seletiva enquanto aguardávamos parecer jurídico. Era um serviço essencial, mas não havia tempo para uma licitação completa. Precisamos buscar uma contratação emergencial”, lembra Tiago.

A solução temporária veio com a Eficiência Ambiental, que hoje opera o aterro sanitário. Ela passou a usar os caminhões do município para executar a coleta, enquanto a Semag participava do chamamento do Instituto Recicleiros, organização da sociedade civil que qualifica todo o ecossistema municipal para a redução do impacto socioambiental do lixo. O projeto incluía que o instituto inaugurasse uma nova associação de catadores, oferecesse estrutura e utilizasse os veículos municipais para realizar a coleta seletiva. 

“A proposta era boa, mas o processo é demorado. A previsão era levar pelo menos seis meses para implementar”, explica Tiago. Como não era possível esperar, a contratação emergencial foi renovada.

Sem o serviço público, os recicláveis acabam descartados nas ruas ou misturados ao lixo comum. Fonte: Maria Beatriz Comunello.

A parceria com os Recicleiros, porém, esbarrou em obstáculos jurídicos. Em outubro de 2023, então, a gestão decidiu encerrar as tratativas. Com isso, a Secretaria de Meio Ambiente optou por executar a coleta com equipe própria, aproveitando os três caminhões-baú e motoristas cedidos por outras secretarias municipais. 

A falta de coletores efetivos foi compensada com mão de obra de apenados do regime semiaberto do Departamento Penitenciário. Mas essa forma de realizar a coleta seletiva ainda tinha problemas: havia alta rotatividade, uma vez que muitos apenados voltavam ao sistema fechado. 

“A gente não conseguia rodar com os três caminhões ao mesmo tempo. No máximo dois, e nem sempre com rotas completas. Bairros mais afastados não eram atendidos para evitar conflitos com catadores que já atuavam na região”, conta.

Outro entrave era técnico. Os caminhões-baú recebidos pela prefeitura em 2020 não estão de acordo com a NR-38 (norma regulamentadora que define os requisitos de segurança e saúde no trabalho para atividades de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos).

 Essa norma, de janeiro de 2024, exige que os veículos compactadores possuam uma plataforma operacional para transporte dos coletores. Sem essa adaptação, a coleta porta a porta se tornaria extremamente lenta, já que o caminhão precisaria parar a cada poucos metros, obrigando os trabalhadores a descerem, recolherem o material e retornarem à cabine a cada parada.

O que esperar agora?

Enquanto os entraves da gestão continuam, toneladas de resíduos recicláveis acabam no aterro sanitário, aumentando, sobretudo, os custos e os impactos ambientais.

 Cada tonelada de lixo que segue para o aterro custa R$216,6 aos cofres públicos. Até o ano passado, a média era de 3.000 toneladas por mês; atualmente, alcança 3.300t. Se parte desse volume fosse reciclado, o município economizaria recursos e prolongaria a vida útil do aterro.

Aterro sanitário de Guarapuava, em 2023. Localizado na Palmeirinha, é de gestão privada e passou a receber os resíduos da cidade após a desativação do antigo aterro municipal. Fonte: Semag.

Em entrevista, a equipe da Secretaria de Meio Ambiente disse que pretende retomar a coleta regular ainda em 2025, embora tenham o prazo de 12 meses para a regularização da coleta. “A expectativa é contratar uma empresa com frota própria e equipe treinada, ampliando a cobertura de 60% para 80% do perímetro urbano”, confirma Tiago.

O que diz a lei?

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One response to “Guarapuava completa 10 meses sem coleta seletiva regular”

  1. […] mostramos nesta reportagem, desde outubro de 2024, o serviço regular de coleta seletiva está suspenso. A interrupção fez […]

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