O consumo de bebidas alcoólicas entre os jovens está em queda no Brasil e em outros países. A mudança de comportamento é especialmente perceptível entre os integrantes da Geração Z, nascidos entre 1995 e 2010, que têm questionado o papel do álcool nas relações sociais e nas experiências de lazer.

Segundo levantamento da MindMiners, apenas 45% dos jovens dessa faixa etária afirmam consumir bebida alcoólica, o menor índice desde 1962. Entre os que ainda bebem, 88% dizem querer reduzir ou abandonar o hábito. Saúde física e mental, produtividade e autocontrole são fatores que pesam mais do que a busca por euforia e diversão.

Da cerveja gelada ao estilo de vida saudável

O álcool é um elemento histórico da sociabilidade. Esteve (e ainda está) nas celebrações religiosas, nas mesas de família, nas guerras, nas festas, nas novelas, nas letras de música. No Brasil, o copo de cerveja gelada no bar da esquina já é parte da paisagem cultural. A bebida, nesse sentido, ocupa o mesmo espaço simbólico que o futebol e o churrasco e representa encontro, conversa, pertencimento.

A representação da bebida como sinônimo de liberdade e diversão também foi reforçada por séries e filmes. Na década de 2000, produções como The O.C. e Gossip Girl associavam o consumo de álcool ao sucesso e à vida adulta. Para os jovens de hoje, no entanto, essa narrativa perdeu apelo.

O álcool não desapareceu, mas já não define o lazer. Em seu lugar, surge um modo de vida orientado pela saúde mental e pelo autocuidado.

Dados confirmam tendência de queda

Os números do 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), divulgado em setembro de 2025 pelo Ministério da Justiça e pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), reforçam essa tendência. O estudo realizado em 2023, que ouviu mais de 16 mil pessoas em todo o país, mostra que 27,6% dos adolescentes entre 14 e 17 anos já consumiram bebida alcoólica, contra 39% em 2006.

Entre adultos, também houve diminuição: 50,2% afirmaram ter bebido no último ano (referente aos 12 meses anteriores à coleta de dados) em 2006, índice que caiu para 42,5% em 2023. A cerveja segue como a bebida mais popular, mas o comportamento de moderação se consolida, principalmente entre os mais jovens.

Mudança de valores e hábitos

A Geração Z cresceu em um contexto marcado por hiperconexão, preocupação com a saúde mental e valorização da performance pessoal. Assim, situações de embriaguez, por exemplo, passaram a ser vistas de forma negativa nas redes sociais, e o medo da chamada “ressaca moral” se tornou recorrente.

A estudante de nutrição Maria Júlia Marques Hajjar, 21 anos, conta que decidiu parar de beber por incompatibilidade com a rotina de treinos e estudos.

“Depois que entrei na academia, percebi que não dava pra conciliar as saídas do final de semana e a quantidade que eu bebia com os treinos. Resolvi parar de vez e me senti melhor física e mentalmente. Inclusive, parei de tomar um remédio para a tireoide, que fazia uso há quatro anos”, diz

A decisão trouxe benefícios, mas também desafios. “O único ponto negativo foi a vida social. Muitas pessoas me viam como ‘a chata’ por não beber, e eu não me sentia representada nem acolhida nesses ambientes. Por isso, hoje em dia, quase não saio”, afirmou.

Já a estudante Ana Júlia Ferreira, 23 anos, teve uma motivação diferente para parar de beber: tomava antidepressivos e não se sentia confortável com a mistura de álcool e remédio. “Parei por vontade própria. As ressacas eram pesadas e acordava ansiosa no dia seguinte. Depois que parei, não tive mais isso”.

Redes sociais influenciam escolhas

Pesquisas científicas recentes indicam que não há nível seguro de consumo de álcool. Um estudo publicado em 2025 no BMJ Evidence-Based Medicine, conduzido por pesquisadores de Oxford, Yale e Cambridge, apontou que até o consumo leve pode causar danos cerebrais e aumentar o risco de demência.

Essas evidências reforçam a percepção de que o álcool representa riscos não apenas físicos, mas também cognitivos e emocionais. A informação circula rapidamente nas redes sociais e impacta as escolhas individuais, especialmente entre os mais jovens, mais atentos a temas como autocuidado e bem-estar.

No entanto, a busca por uma vida saudável também ganhou contornos de exagero. O discurso do “bem-estar” se expandiu para além da saúde física e passou a definir status e identidade nas plataformas. Alimentação balanceada, rotina de exercícios e controle emocional se transformaram em símbolos de sucesso pessoal e, muitas vezes, em novas formas de cobrança.

Termos como lifestyle saudável e clean eating se popularizaram, e reacenderam os distúrbios e as frustrações. A exposição constante a influenciadores fitness e a conteúdos sobre produtividade cria a sensação de que é preciso estar sempre em forma e no controle. Assim, o ato de não beber, que poderia representar uma decisão de autocuidado, às vezes se converte em mais um item da lista de desempenho.

Substituições e novos comportamentos

A queda no consumo de álcool não significa, porém, o abandono de outras substâncias tóxicas. O cigarro eletrônico (conhecido como vape), ganhou espaço na busca pela socialização. O dispositivo, mais prático e moderno, é visto por muitos como menos nocivo, embora a ideia seja equivocada.

O próprio levantamento citado anteriormente mostra esse paradoxo: enquanto o binge drinking (consumo de cinco ou mais doses de álcool em uma ocasião) caiu de 44% para 23,7%, o uso de vapes aumentou. Mais de 1 em cada 20 brasileiros faz uso frequente de dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs), sendo que 5,3% afirmam utilizá-los sempre ou quase sempre.

E esse padrão de consumo regular (potencialmente associado à dependência de nicotina ou uso habitual em contextos sociais) foi maior entre adolescentes (6,9%) em comparação aos adultos (5%).

Redes sociais e o novo padrão de sociabilidade

As redes sociais têm papel importante nessa mudança. Plataformas como TikTok e Instagram ajudaram a difundir a estética do autocuidado e da produtividade, com vídeos sobre rotinas saudáveis, alimentação equilibrada e consumo de bebidas sem álcool.

Essa constante exposição a conteúdos voltados ao bem-estar tem influenciado os jovens a adotar hábitos de consumo compatíveis com esses valores. Em vez das bebidas alcoólicas, que destoam de um estilo de vida mais saudável e focado no desempenho, muitos passaram a preferir opções que oferecem energia e concentração, como o matcha e o café.

Um levantamento da Euromonitor, em parceria com a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), por exemplo, mostra que os jovens de 15 a 24 anos estão entre os maiores consumidores de café no Brasil. Antes associado à rotina adulta, o café passou a simbolizar estilo e foco e, em diversas situações sociais, vem substituindo o tradicional brinde alcoólico.

Espiritualidade e sobriedade

Outro fator que influencia o comportamento da Geração Z é a reaproximação com a espiritualidade. Igrejas e grupos religiosos têm atraído jovens em busca de propósito e pertencimento. A sobriedade, nesse contexto, é associada à clareza e ao compromisso com valores pessoais.

A exposição constante nas redes também reforça a escolha pela sobriedade. Qualquer situação de descontrole pode ser registrada e compartilhada, o que faz com que o comportamento moderado seja percebido como sinônimo de responsabilidade.

O álcool continua presente em comemorações e eventos, mas perdeu o status de protagonista. Para parte dos jovens, o lazer hoje está mais associado à experiência do que ao consumo.

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